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| Mosteiro de Santo André em Ancede Portugal (Imagen baixadas da internet) |
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Bar Snocker do Portuga.
Na década de setenta do século XX, existiu no bairro da
Mooca, da cidade de São Paulo, em uma rua de vocação mista, meio residencial meio comercial, um estabelecimento de nome:
BAR SNOKER DO PORTUGA
O nome do
proprietário era Manoel Silvério Ferreira. Nascido em Ancede, à margem do rio Douro,
no ano de 1934, logo depois da implantação do Estado Novo, também denominado
Salazarismo. Regime ditatorial que sucedeu, em 1933, à um período de ditadura
militar iniciado em 1928. O país viveu poucos anos no regime republicano, uma
vez que a monarquia constitucionalista sobrevivera até 1912. Um golpe militar
em 1928, colocou os militares no poder, que posteriormente foi transferido aos
civis. Salazar serviu-se de sua posição destacada no cargo de ministro das
finanças no regime militar, para assumir a presidência do conselho de
ministros. Junto com Marcello Caetano e Albino dos Reis, liderarm o governo de
Portugal até 1968, e continuou com Marcello até 1974.
Seus pais Dolores da Cruz Ferreira e Joaquim Ferreira
viviam na periferia do povoado. Joaquim trabalhava nos parreirais existentes
nas proximidades. Dolores, quando as condições permitiam, também trabalhava em
atividades temporárias nas propriedades, especialmente nos períodos de colheita
da uva e preparação do vinho. Isso tornava o nível de vida econômico da família
oscilante. Manoel era o último de uma família com sete filhos, intercalados por
no máximo dois anos de diferença. Dessa forma, a partir de certo ponto, a
mulher estava ocupada com os cuidados da prole, além de frequentemente estar
grávida. Impossibilitada de trabalhar para ajudar no sustento, Dolores via
angustiada o marido aceitar todo e qualquer trabalho extra para garantir mais algum dinheiro. Mesmo assim
as dificuldades eram grandes.
O nascimento de Manoel determinou o encerramento dessa
sequência, devido à necessidade de uma intervenção cesariana. Um problema nos
ovários levou o médico responsável a optar por sua remoção. Novas gestações representariam
elevado risco de vida para a mulher. O regime de governo iniciado por Salazar
e seus amigos, inicialmente pareceu trazer alívio às agruras dos trabalhadores
em geral. Mas uma sequência de manifestações contrárias ao governo geraram o
recrudescimento repressor dos órgãos encarregados da segurança. Com isso a vida
seguia tendo suas dificuldades de sempre. Havia sempre o risco de, qualquer
palavra dita de modo indevido, ser interpretada como ofensiva ao regime,
acarretando ao emissor desagradáveis consequências.
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| Rio Douro, na região de Ancede, Portugal (Imagem baixada da Internet). |
Os anos passaram e, mesmo com toda dificuldade, os
filhos cresceram. Graças a Deus, tinham boa saúde, não tendo grandes
dificuldades por esse lado. Quando Manoel Silvério atingiu a idade de 10 anos, a Segunda Guerra Mundial
estava em seu auge, com os aliados buscando de todas as maneiras derrotar as
tropas de Hitler. Portugal se mantinha neutro, preocupado em controlar seus
próprios problemas internos. O conflito que atingiu o mundo inteiro, não deixou
de ter sérias influências na vida dos lusitanos. A guerra provocou escassez de
uma grande variedade de produtos no mercado mundial, ocupado no esforço de
guerra. Isso se refletia indiretamente na vida do povo de Portugal.
Manoel frequentava a escola, usando os livros e outros
materiais que os irmãos mais velhos haviam usado. Pouco havia que tivesse
possibilidade de ser comprado novo. Apenas o estritamente necessário. O menino
era medianamente interessado nos deveres escolares. Estudava apenas o
suficiente para ser aprovado. O que chamava sua atenção eram as máquinas; os
equipamentos a que tinha acesso restrito devido às condições reinantes. Por
isso não perdia nenhuma oportunidade de descobrir tudo que pudesse a respeito
de cada uma que lhe caia sob os olhos. O pai Joaquim falou repetidas vezes que
isso não lhe traria vantagens. Melhor seria tratar de ingressar em algum órgão
do governo e assim garantir melhores condições de vida. Isso requeria dedicação
aos estudos, coisa que não estava nos planos imediatos do menino.
Dolores se esmerava em supervisionar suas atividades
escolares em casa. A realização dos deveres, exercícios, redações e estudar
para as provas. Mal ela descuidava, estava ele examinando alguma coisa ligada
às máquinas. Tinha coleções de folhetos explicativos de diferentes máquinas e
equipamentos, principalmente as de guerra, tão em voga nessa época. Tudo ele
queria saber e quase ninguém podia satisfazer sua vontade, por desconhecere o
assunto. Os irmãos e irmãs estavam atingindo a idade adulta ou na adolescência.
O mais velho Joaquim Ferreira Filho, estava cursando o ensino secundário e se
preparava para ingressar num curso técnico. Visava romper o ciclo de pobreza a
que a família estava fadada se permanecessem na ignorância. Não havia oportunidade de crescer,
almejar uma posição melhor remunerada sem um diploma.
Os demais caminhavam no mesmo rumo. Apenas Manoel
Silvério recalcitrava. O que ele queria era saber de máquinas. Não para ser
operador de uma delas. Tinha vontade de
participar da fabricação, montar, desmontar, fazer manutenção. Os pais
insistiam que ali no interior não havia escola em que pudesse cursar algo nessa
área. Para enviá-lo à capital ou ao Porto, onde isso seria possível, não
dispunham de dinheiro. Que fizesse um esforço especial para conseguir ser
aprovado em uma escola pública e com um emprego em meio expediente talvez
conseguisse seu objetivo.
Manoel viu ali uma oportunidade e começou a dedicar
maior empenho na escola. Seu rendimento melhorou, enquanto sua paixão pelas
máquinas crescia. Não tardou e começou a sair a tarde, ficando horas for a de
casa sem ninguém saber de seu paradeiro. As tarefas escolares ficavam para tràs
e era obrigado a ficar até tarde da noite para terminar. Assim na manhã
seguinte tinha dificuldades em sair da cama e depois manter-se acordado durante
as aulas.
Um dia Dolores decidiu seguir-lhe os passos para ver
onde ele passava tantas horas, quase todas as tardes. Qual não foi sua surpresa
quando o viu entrar em uma oficina de manutenção de automóveis e outros
veículos, além de toda espécie de máquinas existentes na época. Ficou do lado
de for a decidindo o que faria. Iria lá dentro pegar o filho pelo braço e o
levaria para casa? Ou esperaria para ver o que ele estava fazendo naquele
lugar? Não foi preciso esperar muito. Ele havia sumido para o interior e em
poucos minutos saiu com uma roupa bastante folgada, pois havia pertencido a
alguém mais velho. Eram visíveis os sinais de graxa e sujeira proveniente das
máquinas que eram desmontadas.
Apesar da pouca idade, 12 para 13 anos, ele fazia tudo
com enorme cuidade e dedicação. Estava aprendendo e por enquanto lhe confiavam
a desmontagem das partes menos importantes. Mesmo assim ele dedicava enorme
atenção a cada gesto, cada volta de parafuso. Depois de solta a peça era
removida cuidadosamente e colocada num lugar apropriado e em ordem. Assim
saberia a sequência que teria que seguir para montar depois de feito o
conserto. A mãe ficou um longo tempo ali observando e se retirou, voltando para
casa, quando um dos donos a viu, começando a prestar atenção em sua atitude.
Pensara que o filho estava envolvido em atividades menos nobres e ele estava
ali, aprendendo na prática o que tanto queria saber.
O que causava admiração é que, ao voltar para casa,
ele não trazia nenhum sinal de sujeira nas mãos ou no resto do corpo. Não lhe
fez nenhuma pergunta nem falou nada. Iria conversar primeiro com o marido,
explicando o que descobrira. Não tinha intenção de impedir o aprendizado do
menino. Certamente precisariam conversar com o dono da oficina para que tudo
ficasse dentro da normalidade. Era importante que soubessem ser ele um menino
de família e não um moleque perdido, sem eira nem beira.
No silêncio da alcova pôs-se a conversar baixo com o
marido, narrando todos os pormenores do que havia visto. Joaquim ficou um
instante pensativo, coçou atrás da orelha como era seu hábito, depois
perguntou:
- E tu não foste perguntar quem é o dono ou o
responsábel pelo estabelecimento?
- Sabes, Joaquim! Não quis perturbar o menino. Penso
que será melhor nós dois termos uma conversa séria com ele e depois ir até lá
falar com quem é reponsável pelo serviço.
- Pensaste, bem! Pensaste bem! Se chegasses assim de
surpresa ele poderia se assustar, ficar nervosa e mesmo se machuvar. Não
imaginas o perigo que são aquelas ferramentas que usam para desmontar e montar
essas máquinas.
- Não é preciso me falar, marido meu. Eu vi com estes
olhos, que a terra há de comere. Tem umas chaves que são quase do tamanho dele.
Mas ele as maneja como ninguém.
- Vou recomendar ao responsável para tomar cuidado. Se
ele se machucare, depois ficamos nós com os cuidados para tratar dos
ferimentos, ou coisa pior.
- Nossa Senhora de Lourdes que o proteja! Vou fazere
uma promessa a Santinha! Acendere umas velas diante da imagem do mosteiro.
- Não adianta nada só fazer promessas, minhã querida.
Precisamos tomar nossas precauções.
- Mas nunca é demais pedir a proteção do alto, marido
meu.
- Ele deve estar terminando de fazer as tarefas
escolares. Já é tarde. Vou na cozinha tomar um copo d’água e ver se ele já
terminou. Então é isso que ele anda fazendo e de manhã tem preguiça de
levantar. Não é preguiça, é cansaço mesmo.
- Os irmãos estão todos dormindo há um bom tempo. E ele
não tem deixando as coisas da escola para trás. Ainda bem. Ele parece que
descobriu o caminho que vai seguir.
Joaquim levantou, saiu disfarçando, como quem acabara
de acordar depois de dormir um pouco e foi tomar sua água. Ao passar perto da
mesa, viu o filho ainda concentrado sobre um caderno, escrevendo números,
fazendo contas.
- Falta muito para terminares, meu filho?
- Só um pouco, pai. Logo vou dormir.
- Cuidado com a lâmpada. Confere se está bem desligada
para não gastar combustível desnecessário.
- Pode deixar, pai. Eu sempre cuido.
- Durma bem depois.
- O senhor também, pai.
Voltou para a cama e conversaram por mais uns minutos
até ouvirem o menino apagar o lampeão e ir para sua cama. Em minutos reinava
silêncio total na pequena casa. O espaço era pouco, mas era o que seus recursos
podiam pagar. Era preciso aguentar e buscar um meio de melhorar. Os filhos
faziam planos para quando se formassem e tivessem seus empregos. Prometiam dar
dias melhores aos pais. Joaquim pensava em seu íntimo, se os políticos permitissem
que alguém progredisse. Pareciam cada vez mais empenhados em arrancar o máximo
em impostos de todo mundo para manter sua máquina de repressão das manifestações
contrárias ao regime. Havia multidões encarceradas, superlotando os presídios. Frequentemente
corriam notícias de rebeliões em presídios, logo reprimidas violentamente.
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| Apresentação folclórica na praça, perto do Mosteiro de Santo André. |
Não eram raros os casos de presos desaparecidos nas
penitenciárias, de quem nunca mais se ouvia falar. Como tantos outros
lusitanos, Joaquim sonhava com o dia em que houvesse paz no país. Não fosse
preciso temer a cada dia pessoas sendo colocadas na prisão por motivos pouco
mais que banais e, por vezes, voltar dentro de um esquife, ou em estado
lastimável. Não era esse o sonho acalentado pelo povo do país ao dar apôio a
Salazar quando havia sido implantado o regime atual. As promessas eram de um
período passageiro para por ordem na casa e se passara mais de uma década, nada
de ordem e a opressão cada vez mais severa. Será que os filhos teriam a chance
de ver dias melhores?
Pensando nessas questões, dormiu devido ao cansaço do
dia de trabalho árduo. Ao encerrar o trabalho na vinha, for a ganhar alguns
cobres extras num serviço de limpeza do quintal de uma senhora idosa da
vizinhança. Ela não lhe pagava muito, mas era alguma coisa para ajudar. Assim
ajudava ela. Vivia da magra pensão que o marido, um funcionário público de
baixo escalão lhe deixara ao morrer.
Logo cedo, os filhos sairam para a escola,
Joaquim foi trabalhar, ficando Dolores sozinha para preparar o almoço. Era o
momento em que todos chegavam famintos. Por sorte, com os trocados ganhos no
serviço na tarde anterior, pode ir até uma bodega comprar alguns mantimentos. Dessa
forma o sustento da família estava reforçado por alguns dias. Nem sempre isso
era possível. Deu mentalmente graças a Deus e pôs-se a trabalhar.
Primeiro fez uma faxina na casa. Depois da noite de
sono, sempre ficava alguma sugeria espalhada por todos os lados. Por volta de
nove e meia, iniciou a preparação do almoço. O dia correu normal. Naquela noite,
depois que os irmãos foram dormir, Maneol viu os pais sentarem-se diante dele,
perto da mesa e ficou apreensivo. O que significaria aquilo? Fizera alguma
coisa errada? Logo imaginou que alguém denunciara suas escapadas vespertinas até
a oficina. Nem lhe ocorreu que a mãe o seguira e vira com os próprios olhos o
que ocorria. Esperou alerta, pronto a se defender, ou até mesmo inventor uma
pequena mentira para safar-se da enrascada.
- Meu filho, - falou Dolores. – Eu e seu pai
precisamos conversar com ti.
- O que aconteceu, mãe? – indagou o menino.
- Ontem, quando você saiu daqui escondido, eu segui
você.
Ele ficou vermelho igual um tomate maduro. A própria mãe
desvendara tudo. Não adiantaria inventar nada. Eles sabiam de tudo e
provavelmente iriam impedir que voltasse à oficina. Ficou esperando a continuação.
- Tua mãe me contou Manoel, que você está indo naquela
oficina que tem perto da praça. Deveria ter avisado a mim e tua mãe do que ia
fazer. Pensamos que estivesses a fazer travessuras. No fim descobrimos que estás
a aprender um trabalho.
- Estou aprendendo a desmontar e montar as máquinas. Ainda
não faço as coisas mais complicadas, só as bem simples.
- Mas estás a te expor ao risco de te machucares
seriamente. Ou pensas que aquelas ferramentas não machucam se usadas de modo
errado?
- Eu si pai. Tomo muito cuidado.
- Tu ainda és menino. Não tens força para certas
coisas. Podes cair e se cortar, quebrar um braço ou perna.
- Mas isso acontece até brincando. Outro dia mesmo o
Francisco da tia Maricota, quebrou o braço nas brincadeiras na escola.
- Nós sabemos disso, mas abusar da sorte não é
conveniente. Achamos melhor esperar mais uns dois anos para começares a
trabalhar.
O menino olhou com os olhos suplicantes para os pais e
lágrimas rolaram por suas faces. Quando parecia que iria apoiar a cabeça nos
braços cruzados a sua frente, olhou resoluto para os genitores e falou:
- Eu prometo não me machucar. Deixem eu continuar a ir
na oficina, pelo menos um pouco todos os dias.
Os pais se entreolharam significativamente e Dolores
falou:
- Vamos fazer uma experiência por mais umas semanas,
digamos até o final do mes. Se nada acontecer, tu continuas. Mas se voltares
machucado, acabou oficina.
- Obrigado, mamãe, papai! Prometo estudar mais ainda
para não dar trabalho na escola.
- Isso é algo que nem se discute. A escola tem preferência.
Se apareceres com notas baixas, reclamações dos professores ou algo assim, também
terminou a história da oficina.
- Amanhã seu pai vai passar lá no final da tarde, ao
voltar do trabalho para conversar com o dono da oficina. Vamos combinar dereito
isso. Não é justo trabalhar de graça. Mesmo que esteja aprendendo, mas sempre
faz alguma coisa.
- Assim você ganha uns cobres para comprar alguma
coisinha que precise.
O menino pôs a mão no bolso e retirou algumas notas
amarfanhadas. Entregou ao pai que contou e viu que ele ganhara um bom trocado. Olhou
para o menino e falou:
- Aqui tem dinheiro igual a uma semana de trabalho
meu. Você ganhou isso ou como veio prar no seu bolso esse dinheiro?
- Pode perguntar ao Senhor João, dono da oficina. Ele me
pagou hoje as duas semanas que trabalhei lá. Já sei desmontar e montar uma porção
de coisas. Mais tarde vou aprender a descobrir os defeitos e consertar. Aí vou
ganhar bem mais dinheiro.
- Mas não penses só em dinheiro. Tens que pensar na vida
e saúde. Tens muito que viver e não vale a pena estragar a saude ainda criança.
- Quando tenho que tirar peças muito pesadas, peço
ajuda. Os outros também me pedem ajuda e assim nos viramos.
- Guarde esse dinheiro. Se a mãe precisarr, ela fala e
você ajuda com alguma coisa na despesa da casa.
- Vou ficar só com uns cobres. O resto eu deixo com a
mãe para comprar o que estiver faltando.
A mãe separou um pouco do dinheiro e entregou-o ao menino.
Guardou o resteo no bolso do avental, junto com uns trocados que haviam sobrado
do último serviço extra de Joaquim. Pensou no que poderia comprar para melhorar
nível de alimentação da família. Quem imaginaria que o caçula, motivo de
preocupação com suas ideias diferentes, começasse tão cedo a ajudar a manter a
casa.
Depois de conversar com os pais, o menino ficou aliviado por
saber que eles aprovavam o que vinha fazendo e estes, por sua vez, ficaram
menos apreensivos com as perspectivas de futuro do filho. Dava para perceber
que ele aprenderia a encontrar o caminho por sua própria conta. Era o que
demonstravam suas atitudes nas últimas semanas. Começara escapando da vigilância
da mãe e voltara horas depois. Já havia feito isso uma ou duas vezes antes, mas voltara logo. Dera uma desculpa qualquer e ficara por isso mesmo. Finalmente
estava tudo explicado.
O menino terminou de fazer suas tarefas, o coração aos
pulos, quase não conseguiu fazer tudo direito, tamanho era seu contentamento. Os
pais por sua vez se recolheram ao seu quarto, conversando alguns minutos antes
de dormir profundamente. Na hora de sair para a aula, Manoel deu um beijo na
mãe, outro no pai e saiu. Os dois se olharam, se entenderam sem dizer palavra. Compreendiam-se no simples olhar, dizendo por vezes mais do que muitas
palavras vazias. Logo a seguir Joaquim também foi trabalhar. Dolores lavou a
louça do desjejum e passou uma vassoura na casa, deixando tudo arrumado em um
instante. Estava com o espírito alegre. Enquanto fazia seus afazeres pensava no
quanto poderia comprar de cada ingrediente, um pouco de peixe, um bocado de
carne de porco, além de outros ingredients mais baratos e duráveis.
O almoço parecia uma pequena festa. Os irmãos olharam
para a mãe indagadoramente, como que a dizer:
- O que estamos comemorando? Papai ganhou um aumento?
Ganhou na sorte grande?
Ela apenas sorriu enigmaticamente e continuou servindo
os alimentos. No momento em que estava tudo pronto, nada mais se falou. Todos comeram
com gosto e Manoel, sabendo que a melhoria na mesa, era decorrente do dinheiro
que deixara com a mãe. Sentiu-se imensamente satisfeito. Estava dando sua
contribuição na casa, apesar de sua pouca idade. Quando os irmãos e irmãs
seguiram seus afazeres, ele já com a roupa trocada, saiu depois de dar um
ligeiro adeus à mãe. Caminhava eufórico com a situação. Seu trabalho, ainda
como aprendiz, proporcionara à toda família uma refeição bastante substancial. Poder-se
ia dizer quase um banquete.
O tempo passou, os anos
sucederam-se rapidamente e logo os filhos mais velhos estavam se formando nos
seus cursos técnicos. Manoel estava agora com 15 anos. Os rumores de um retorno
à guerra no resto do continente e do mundo estavam cada vez mais distantes. O menino
agora já era capaz de fazer sozinho uma porção de serviços bastante complexos
nos veículos e com isso seus rendimentos também cresceram. Ninguém mais
ingorava a situação e ele participava ativamente das conversas sobre as
despesas da casa. Fazia planos sobre seu futuro
| Mausoléu de família nobre em Ancede, Portugual |



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