quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Gaucho resolvido! - Capítulo III



Gaúcho resolvido!

Capítulo III


Sede de fazenda.



Margarida Maria Vargas.


            Antes de Fulgêncio tomar parte do conflito contra Francisco Solano Lopes, houvera tempo de nascer a única filha do casal, Margarida Maria Vargas. O pai partira para a guerra quando a menina contava com alguns meses de vida. Dessa forma ela muito pouco, praticamente nada, sabia dele. Crescera aos cuidados da mãe e sob a tutela constante de uma criada de confiança, a Siá Balbina. Era de idade indefinida e vivia na fazenda desde que Carlota podia se lembrar. De uma dedicação canina à família, era parte dela com o são os móveis, mesas, cadeiras e outros objetos. Tomava conta da pequena Margarida como se fosse uma joia rara.
            É fácil entender que a menina cresceu com algumas regalia nem sempre disponíveis na infância. Mesmo assim, havia muitas limitações causadas pelo estado de beligerância em que vivia o país, a escassez de alguns mantimentos, obrigando a fazer um controle rigoroso para evitar a falta do essencial. Estava com a idade de 8 para 9 anos quando Francisco foi guindado ao cargo de capataz. Em seus folguedos gostava de ver os peões lidando com o gado, assistir às sessões de doma de potros, sempre com Balbina nos seus calcanhares. Cedo reparou no garboso capataz que a mãe nomeara. Percebia que se tratava de um homem ainda jovem, mas de um senso prático admirável. Tinha sempre uma maneira mais suave e justa de resolver qualquer diferença porventura existente em qualquer situação.
            Em uma dessas ocasiões, Francisco observou a menina olhando fixamente para ele e decidiu conversar com ela. Falaram de amenidades, mas ela não se deteve muito tempo no assunto. Em instantes estava indagando sobre vários assuntos relativos ao trabalho, causando espanto em Francisco. Mesmo assim respondeu com a maior delicadeza deixando a menina encantada com sua polidez. Passou a nutrir sincera admiração pelo jovem capataz. Sua tenra idade ainda não lhe inspirava outra forma de sentimento com relação ao homem, salvo a admiração por alguém que ela via como uma espécie de irmão mais velho. Ela nem irmão ou irmã tinha, todavia imaginou que, se tivesse, ele seria daquele jeito.

Peão tangendo gado.

Peões reunindo o gado.


            As conversas entre eles foram ficando mais frequentes e com o tempo passando, não tardou a ter início o desenvolvimento das características femininas da criança. Ela chegava a puberdade. Seu corpo começou a sofrer transformações que de início a incomodavam, pois implicavam em roupas que não serviam mais, seu andar ficou desajeitado, sensações estranhas fervilhavam em seu íntimo e ela não sabia o seu significado. Ao perceber as mudanças na menina, Balbina tentou explicar com seu jeito simples o que acontecia e ela no começo ficou satisfeita. Um dia decidiu perguntar à mãe o que significava toda essa mudança.
            A mãe Carlota, andara bastante ocupada em administrar a fazenda no aspecto financeiro, esquecendo-se quase que completamente de que tinha uma filha em vias de se transformar em menina moça. Parou por um instante, chamou Margarida para sentar-se numa confortável poltrona e calmamente explicou à garota o que estava ao seu alcance entender naqueles dias iniciais. Satisfeita com os esclarecimentos, levou ainda a promessa de novas conversas quando houvesse alguma coisa em que tivesse dúvidas. Sabia agora que estava se tornando mulher. Em algum tempo não seria mais uma menina e, ao término desse processo, poderia ser mãe. Estaria apta a casar-se, ter filhos e portanto ter sua própria família.
            Essas informações foram penetrando aos poucos na cabeça ainda infantil, mas iniciando a transição para a adolescência e uma infinidade de sonhos povoou sua imaginação. Como seria o seu marido que um dia seria seu companheiro? Ficou pensando nos peões que viviam com as famílias nas fazendas e eles foram passando um a um diante de sua mente. De repente uma figura se destacou e ela sentiu o pequeno corpo estremecer. Tivera a visão de Francisco, garbosamente vestido em seus trajes típicos, convidando-a para dançar. Depois um devaneio prolongado levou-a ao momento em que ele pedia à sua mãe permissão para ficarem noivos e depois via-se caminhando para o altar da pequena capela existente nos domínios da fazenda. Lá estava à sua espera Francisco em um terno muito bonito, perfeitamente barbeado, com um bigode bem aparado. Um peão já idoso a levava pela mão, em substituição ao pai que perdera ainda tão criança.
            Espantou os sonhos e voltou à realidade. Continuou vivendo sua vida de criança/adolescente e notava a cada dia alguma coisa diferente. Seus pequenos seios começaram a entumescer, ficando por vezes levemente doloridos. Notou umas penugens surgindo em torno dos órgãos genitais e foi perguntar à mãe se isso era normal. Sentiu-se insegura especialmente com relação às sensações de dor. Poderia significar alguma doença e ela sentia verdadeiro pavor disso. Nunca ficara realmente doente, apenas um ou outro desarranjo estomacal devido a algum exagero de alimentação, alimentos indigestos e apenas isso. Um ou outro resfriado, nem febre tivera que pudesse lembrar. Uma dor mesmo de verdade ela nunca soubera o que significava.
Os anos passaram, Margarida virou mocinha e depois se transformou em uma jovem mulher, no pleno vigor de seus 15 anos. O processo de transformação da menina que fora em mulher, estava quase complete. Sua altura era media, cabelos castanho escuros, longos e levemente ondulados, o rosto ovalado, denotando uma descendência espanhola presente nas gerações passadas. Chegou o dia em que faria sua estréia nos fandangos realizados na fazenda e nas propriedades vizinhas. A mãe, agora já em situação financeira estabilizada, fez questão de prover uma indumentária adequada para a ocasião. Ordenou a contratação de um grupo musical da cidade, mas especializado em músicas típicas, o galpão estava com assoalho novo e iria ser inaugurado naquele fandango. Não desejava ver a filha, ao final do baile, completamente empoeirada por dançar no chão batido.
O baile começou e em dado momento, Margarida e mais cinco mocinhas das redondezes, bem como filhas dos peões, foram apresentadas à comunidade. Pediu-se aos músicos para tocarem uma valsa no capricho e as “debutantes” dançaram com os pais. Margarida, na falta do pai, convidara Francisco para dançar com ela. Ele inicialmente tentara se esquivar, mas ela, com seu jeito meigo, embora convincente e firme fez com que aceitasse. Estava de roupa nova, especialmente comprada para a ocasião e os dois dançaram lindamente. Carlota ficou encantada com o belo par que seu capataz formava com a filha e sentiu que, não ficaria surpresa se dali resultasse algo mais que uma mera dança de baile de quinze anos. Mas deixaria o tempo correr. Não sentia pressa em ver a filha casada. Era jovem e tinha ainda muito que aprender sobre prendas domésticas. Não que pensasse em vê-la labutando numa cozinha igual criada, mas era necessário saber fazer, para ter aptidão para comandar as serviçais.
            O baile terminou depois de muitas danças, sendo que em diversas ocasiões Francisco a convidara novamente e ela não recusara. Sentia-se flutuar quando ele a conduzia com seu passo firme, seu corpo forte e flexível, mesmo nos passos das danças mais complicadas. Chegou à sala, com o rosto afogueado devido ao calor, bem como ao esforço de seguidas vezes que dançara, tanto com Francisco como outros rapazes que a havia convidado. O cansaço era tanto que mal teve forças para retirar os sapatos, trocar o vestido, fazer uma ligeira higiene noturna e caiu na cama. Dormiu um sono agitado por sonhos românticos. Ora era um jovem desconhecido que a levava pela mão, ora outro, mas no fim sempre o resto se transformava no de Francisco. Em certo momento ficou plenamente acordada e ficou imaginando se estaria ficando seriamente apaixonada pelo capataz. O que sua mãe pensaria disso? Aceitaria receber o capataz, como genro? Tinha elevada estima por ele, mas daí a tornar-se membro da família, era uma grande distância. Estava divagando e daria tempo ao tempo. No momento oportuno conversaria com a mãe e ela lhe ajudaria a tomar a decisão acertada. Confiava cegamente na lucidez das decisões da mãe.
Mas seria tarefa da mãe decidir nessa questão? Não era a ela que cabia tomar a atitude final num assunto dessa natureza? Bem, estava cansada e deixaria para pensar no dia seguinte ou mesmo depois de alguns dias. Por ora precisava recuperar as energias despendidas no baile que for a deveras divertido. Nunca sentira nada igual. Agora era mulher, era uma prenda e poderia ser requestada por qualquer peão guapo que aparecesse na redondeza. Havia muito que viver antes de qualquer decisão mais séria com relação ao resto de sua vida. Estava no limiar de sua existência. Por quê se preocupar já em casamento? Filhos? Família? Não que isso estivesse for a de suas cogitações, mas não para o momento imediato. Era um projeto de longo prazo.
Na manhã seguinte, estava ali, curiosa e perguntadeira sua querida Siá Balbina. Estava bem idosa, as consequências de uma vida longa e trabalhosa estavam visíveis em suas juntas, seu rosto enrugado. Somente seu olhos vivos, atentos e perspicazes não haviam mudado. Bastou olhar para sua “menina”, era como ela a chamava, e percebeu que havia no rosto um brilho diferente. Era ar de coração apaixonado, disso não tinha dúvida. Não fez no entanto perguntas. Queria esperar que a menina falasse espontaneamente. E lhe daria tempo para isso. Ajudou-a a levantar, escolher a roupa para vestir depois de lavar o rosto e pentear os cabelos sedosos. O tempo passou e Margarida nada falou, deixando Balbina cada vez mais curiosa.


Gado na mangueira.

Lago cercado perto de propriedade

Em determinado dia da semana seguinte, surpreendeu-se ao ver sua pupila caminhar, de modo bem fagueiro, uma flor no cabelo, um vestido leve e florido, rumando na direção da mangueira onde Francisco estava supervisionando a apartação de bezerros para engorda. Ela se aproximou como quem não quer nada e ficou observando sem dizer nada. Num momento de relaxamento entre um comando e outro aos subalternos, Francisco reparou em Margarida e lhe disse um sorridente:
-          Bom dia senhorita!
-          Bom dia, Francisco!
-          Como vai minha prenda?
-          Eu vou bem e você?
-          Estou ótimo. Só está um pouco quente. É bom se proteger ali na sombra ou vai queimar a pele.
-          Estou precisando tomar um pouco de sol.
-          Mas não carece tomar sol demais, senhorita. Nós também vamos parar logo, pois o sol está muito forte. Os animais ficam muito cansados.
-          Vou sentar ali naquele banco para observer.

Francisco em alguns minutos terminava o serviço com o gado, foi até um tanque próximo, lavou o rosto, molhou o cabelo e passou os dedos a guisa de um pente. Depois colocou de volta o chapé e veio sentar-se próximo à Margarida, depois de lhe pedir licença.
-          Nem precise pedir licença, Francisco. Você é como da família.
-          Nem me fale em algo assim, senhorita. Conheço meu lugar e não quero faltar-lhe como respeito.
-          Não é necessário ser tão formal. Eu quero ser seu amigo. Quase não tenho com quem conversar e sinto falta de alguém que sente, converse. Alguém diferente da mãe, Siá Balbina.
-          Elas vão ficar tristes se a ouvirem falar isso.
-          Vão não. Eu explico a elas e vão entender.
-          Eu não quero complicações. Estou muito satisfeito com meu trabalho.
-          Fica tranquilo que não vou lhe causar embaraços. Até mais tarde, que deve estar na hora do almoço. Acabei de ouvir Siá Balbina chamando. Até logo.
-          Inté, senhorita.

Margarida levantou, deu adeus com a mão e foi para casa, onde de fato o almoço estava servido. Lavou as mãos e o rosto rapidamente indo sentar-se para a refeição.
-          Onde foi que você esteve, Margarida? – perguntou Carlota.
-          Estava lá perto da mangueira vendo a apartação de bezerros.
-          Acho que nossa menina está de olho enrabichado, sinhá Carlota.
-          Nem fale uma coisa dessas, Siá Balbina. Eu ainda sou criança.
-          Criança você não é mais faz muito tempo, Margarida.

Dali em diante ocuparam o tempo para saborear a refeição que estava muito bem preparada. Depois foram para seus aposentos para uns miniutos de repouso e mais tarde retomariam os afazeres rotineiros. 

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O mineiro sovina! - Capítulo I.

           Hoje começo a publicar os capítulos de novo livro, cuja redação venho protelando há mais de um ano. Estão faltando desenvolver alguns aspectos da trama para lhe dar a forma final. Desejo colher críticas e sugestões para poder aperfeiçoar o trabalho antes que ele vá para o processo de edição e depois publicação como livro, não necessariamente acabado, mas o mais próximo possível do ideal. 


Paisagem da região de Sete Lagoas (Serra do Cipó).

Linda vista de uma cachoeira entre montanhas em Sete Lagoas (Serra do Cipó)


O mineiro sovina!

Capítulo I






A formatura.    


José Silvério da Silva, filho de um pequeno comerciante do ramo de alimentos em Sete Lagoas, estado de Minas Gerais, concluiu com brilhantismo o curso de bacharel em direito, pela Universidade Federal de Belo Horizonte. Na cerimônia de colação de grau, o pai, Pedro da Silva, não cabia em si de contentamento. A mãe, dona Elisa Ramos da Silva, vertia lágrimas de alegria em abundância. O sacrifício necessário para permitir ao filho se manter e estudar fora alto. Estavam colhendo os frutos do que haviam plantado ao longo dos anos.
No retorno à cidade natal, José Silvério encontrou uma grande festa. Seu pai queria compartilhar com os amigos, parentes e vizinhos a conquista do filho. Seria sem dúvida um advogado de renome em um future próximo. Por sinal já tinha recebido um convite. O principal associado de um dos maiores escritórios locais de advocacia, pedira para lhe fazer uma visita com vistas ao possível ingresso na sua equipe de trabalho que comandava.
Pedro havia alugado as instalações de um clube para realizar a festa. Houve fartura de comida, bebida e no final, animado por uma orquestra contratada a bom preço, foi realizado um animado baile. Todos os presentes vinham parabenizar José Silvério, augurando-lhe um futuro promissor. No decorrer da festa foi sutilmente convidado a comparecer nos próximos dias a mais de um escritório de direito. Havia os de maior expressão e também os que ainda se encontravam em fase de expansão. Todos queriam ter em seus quadros um bacharel que acabara de se formar na capital do estado com menção honrosa, fato que for a publicado em todos os jornais locais.
            Nos primeiros dias, após o retorno, tratou de visitar os amigos, os avós, os tios, sem deixar de fazer uma visita a todos os escritórios que o haviam convidado. Ouviu as diversas propostas de trabalho, as funções que iria desempenhar, os ganhos iniciais e principalmente as possibilidades de fazer carreira. Iria analisar todas elas e faria sua escolha. Para isso iria levar em conta os aspectos econômicos, bem como as áreas de atuação de sua preferência. Não havia pressa, afinal estavam às vésperas das festas de fim de ano e ninguém iria tomar decisões importantes em litígios durante aqueles dias. Poderia gozar um merecido descanso junto à família. Depois iria mergulhar com todo gás no trabalho, fosse onde fosse recair a sua escolha.
            O pai lhe proporcionou uma estadia de alguns dias no Rio de Janeiro, onde visitou os locais turísticos, aproveitou o sol nas belas praias. Paquerou as belas banhistas, sem no entanto se envolver com nenhuma delas. Os anos de convivência acadêmica na tradicional Belo Horizonte, haviam lhe ensinado alguma coisa no tocante as mulheres. Não deixaria nenhuma aventura leviana por em risco suas aspirações de futuro e havia assimilado muito bem o espírito tradicional mineiro. No primeiro e Segundo ano de sua permanência em Belo Horizonte, envolvera-se em dois casos amorosos. A experiência não for a das melhores. Ao se ver desvencilhado decidiu ir bem menos fundo nessa questão, deixando para mais tarde, quando sua situação profissional estivesse consolidada para pensar em constituir família. Havia tempo suficiente para isso.
            Não deixou de se fazer presente a algumas casas noturnas para se divertir. Previa nos próximos anos com muito trabalho, muitas horas dedicadas aos estudos e análise de processos. Fazia questão de ser um bom profissional e para isso precisaria primeiro conseguir aprovação na prova da OAB, conquistando assim seu registro de advogado. Só então seria um profissional de verdade. Por ora estava habilitado a atuar em alguns cargos públicos em que não precisaria atuar em tribunais, perante juízes. Tinha porém o desejo de ser complete em sua profissão. Era ambicioso e queria também recompensar o sacrifício dos pais durante os longos anos de estudos na capital.


Cachoeira na Serra do Cipó.

Cachoeiras em sequência na Serra do Cipó.

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Gaúcho resolvido! - Capítulo II


Gaúcho resolvido!

Capítulo II
Manejando o laço(www.abril.com.br)

Fazenda Santa Maria.


            Se retrocedermos algumas décadas, encontraremos por volta de 1875, a bisavó de Joaquim, dona Carlota Vargas, parente distante da família do futuro presidente Getúlio Vargas. Havia sido casada com Fulgêncio Vargas, homem de trabalhador e sério, porém incapaz de ficar sossegado enquanto existisse algum lugar na região em que houvesse peleia em jogo. Foi com disposição que se engajou nas tropas brasileiras no combate ao invasor Francisco Solano Lopes, presidente do Paraguai. Em pouco tempo estava comandando um pequeno regimento de cavalaria e se destacou em vários combates. Avançou rumo às terras paraguaias e lá encontrou seu fim, pouco antes do final das hostilidades. Ficou sepultado por lá e mais tarde a família conseguiu remover os restos mortais para o jazigo existente na fazenda.
            Encontrava-se pois dona Carlota viúva e com toda a carga de trabalho da fazenda Santa Maria, pesando sobre seus ombros. Homens bons para comandar os peões nas lides com o gado eram relativamente raros. Muitos haviam sucumbido assim, como seu marido Fulgêncio no conflito contra Solano Lopes. Tinha uma filha para terminar de criar e uma fazenda com falta de braços para conduzir. O belo gado de corte, outrora orgulho dos donos, estava reduzido, pois boa parte for a vendida ao exército a preço abaixo do mercado e um outro tanto for a roubado, morrera por falta de cuidados. Tudo isso deixava a senhora, de resto muito resoluta e guapa. Montava e laçava igual um peão, não ficando para trás. Só assim conseguia manter o domínio sobre aquele bando de homens rudes e muitas vezes violentos.
            Havia entre os mais jovens ao seu serviço um menino que lhe chamou a atenção. Hábil no laço, na doma de cavalos e com os novilhos na hora de marcação ou outras atividades era brilhante. Era bem quisto entre os companheiros e, apesar da pouca idade, tinha sempre uma sugestão inteligente a dar para aumentar a eficiência dos trabalhos. Carlota começou a prestar atenção especial ao peão, pouco mais que um menino, mas comportamento de homem. Permitia prever que seria um homem de grande valor no futuro, contanto que fosse conduzido de forma correta.
            A falta de um homem de confiança a quem encarregar de cuidar da preparação desse jovem para ocupar futuramente uma posição de destaque entre os servidores da fazenda, deixou Carlota em uma posição ambígua. Se tomasse o jovem sob sua proteção direta, poderia estabelecer um clima constrangedor para ele perante os demais. Deixá-lo avançar sob algumas más influências que sabia existirem entre seus servidores, poderia por a perder uma personalidade ainda em formação. O que facilitou a tarefa, foi o fato de que a cada dia a popularidade do jovem aumentava entre os peões, conquistando inclusive a admiração dos mais velhos e antigos. Assim foi possível atribuir ao mesmo algumas atribuições, inicialmente mais elementares, que exigiam dele um desempenho diferente. Inteligente e sensível ele logo percebeu que estava tendo um tratamento diferenciado por parte da patroa.
Momento de oração antes do início de rodeio(itzbrasil.blogspot.com)

            Em uma conversa com um dos mais velhos, alias um tio seu, ele foi orientado a não deixar que essas distinções lhe subissem à cabeça. Importante seria fazer seu trabalho com o máximo de dedicação e não deixar esse tratamento diferenciado recebido da patroa, influenciar seu relacionamento com os companheiros. Ele foi bom discípulo e seguiu os conselhos do velho peão. Gradativamente suas responsabilidades foram ampliadas e chegou um dia em que não foi mais possível ocultar a existência de uma posição especial de parte de Francisco Souza Monteiro na fazenda. Houve algumas murmurações maldosas por parte de alguns peões, mas foram surpreendidos por Carlota que lhes pediu explicações. Caso não cessassem com as maledicências, teriam seus contratos encerrados e estariam sem trabalho. Ser despedido numa época de carência de trabalhadores, poderia significar vagar por muito tempo a procura de outra colocação. Até mesmo necessidade de ir para longe em busca de um trabalho.
            Quando Francisco contava com 20 anos completos, foi oficialmente nomeado por Carlota para a posição de Capataz da fazenda. Sabia que o jovem enfrentaria algumas resistências por parte dos mais antigos, mas também conhecia sobejamente sua perspicácia e habilidade em lidar com situações mais complexas. Diversas oportunidades tivera de observar a forma como ele enfrentava situações adversas e sempre soubera contornar de modo sutil cada um dos problemas enfrentados. Ele saberia dominar de modo firme, mas sem truculência aqueles homens de per si dados a algumas grosserias e comportamentos menos distintos.
            Havia chamado o novo capataz para conversar, lhe propusera a situação e ele inicialmente não quisera aceitar. Considerava-se inapto para a função, mas Carlota lhe fez ver uma série de situações em que se saira esplendidamente bem. Isso aos poucos elevou a auto-confiança do rapaz, criando nele uma auto-estima fundamentada em seus próprios méritos. Recebeu o pedido de não deixar a nova função transtornar-lhe os pensamentos, ao que acedeu de bom grado. Aos poucos iria recebendo as instruções e passaria gradativamente a exercer seu novo cargo, até ficar plenamente investido em sua autoridade perante os demais servidores da propriedade.
            Foram precisos apenas poucos dias para Francisco tomar pulso da situação e todos os peões, do mais idoso ao mais jovem, passaram a respeitá-lo, principalmente por causa da forma calma e prudente com que enfrentava todas as dificuldades. Logo granjeou, além do respeito, principalmente a admiração dos subalternos. Nunca se furtava de participar dos trabalhos. Geralmente era o primeiro a estar na lide e assim não deixava espaço para murmurações e maledicências. Inicialmente de modo humilde ele sugeriu a Carlota algumas mudanças na condução da criação e logo falava com autoridade. Todas as mudanças introduzidas produziram resultados positivos. Em pouco tempo a fazenda retomava os caminhos da prosperidade conhecida em tempos passados.



Touro no rodeio(baixarmusicasonline.com , 0.jpg)

            Carlota sentiu-se muito satisfeita com a decisão tomada. Soubera transformar um jovem, ainda inexperiente, em capataz de inestimável valor. Não foram poucos os vizinhos que ofereceram a ele o lugar em suas fazendas, inclusive nesse momento em melhores condições econômicas, mas ele declinou das ofertas. Sabia ser grato a quem soubera ver em sua inexperiência valores de que nem ele teria imaginado ser possuidor. A alegria da dona era tanto mais complete, uma vez que evitava que a fazenda tinha o seu nome devido a uma homenagem que seu avô fizera à sua avó Maria Vargas. For a uma mulher de rara beleza, alem de  incomparável valor humano e moral. Temos aí a origem do nome da fazenda de nossa historia.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Debate entre os presidenciáveis!

Um debate diferente!

      É isso que eu espero desse encontro dos candidatos ao cargo máximo da nação. Um debate diferente, sem posicionamentos tendenciosos, questões capciosas e de dupla interpretação. Ficarei imensamente chateado se houver qualquer desvio de conduta de quem está encarregado de conduzir os trabalhos. 

      Ainda faltam sete dias para o evento. É tempo suficiente para uma preparação adequada do quê vai ser perguntado e o que vai ser respondido. Importante é assistir com o espírito desarmado e identificar entre os postulantes ao cargo quem está mais apto a sentar naquela cadeira, ambicionada por tanta gente. Desejo aos organizadores bem como aos participantes, que estejam iluminados e nos mostrem a realidade de suas intenções, seus verdadeiros projetos, para que assim nos ajudem a fazer as melhores escolhas no dia da realização do pleito. Não vamos esquecer a data: 16/09/2014, marquem em suas agendas.  

          Recebi o texto e fotografia assim como está aqui postado, por e-mail. Decidi compartilhar e assim contribuir para o esclarecimento dos milhões de eleitores dos quatro cantos do país. Espero que todos, sem importar o credo religioso a que pertençam, assistam e consigam diminuir suas dúvidas sobre o candidato que irão indicar na urna. 



Debate em TV católica deixa presidenciáveis sob pressão
Em 05/09/2014


Candidatos em campanha são hábeis em driblar polêmicas. Geralmente sacam do colete respostas evasivas ou confusas. Com blá-blá-blá às vezes incompreensível, tentam manipular os interlocutores para não se comprometer.

Temas explosivos como aborto, casamento gay e células-tronco são evitados a todo custo. Nos raros casos em que um candidato anuncia sua posição, procura não se aprofundar no assunto a fim de evitar contestações e fazer disso uma arma para os adversários.

Nos debates realizados na Band e no SBT, a maioria dos presidenciáveis pisou em ovos quando questionados sobre esses temas delicados. E eles têm razão em temer prejuízo à campanha e, consequentemente, perda de votos.

Veja o que aconteceu com Marina Silva após titubear sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Anunciou ser a favor, voltou atrás e agora tenta limpar sua barra dizendo ter sido mal interpretada.

No dia 16, um evento poderá deixar não apenas um, mas vários candidatos à Presidência na maior saia justa. É a data do debate presidencial na TV Aparecida, realizado em parceria com a CNBB(Confederação Nacional dos Bispos do Brasil).

O debate será retransmitido por outras mídias católicas, como emissoras de rádio, portais de notícias e redes sociais. Será a primeira vez que uma rede católica irá sabatinar os postulantes ao Palácio do Planalto.

A posição da igreja sobre interrupção de gravidez, união entre pessoas do mesmo sexo e manipulação de células embrionárias é conhecida.

Agora os líderes brasileiros do catolicismo — e boa parte dos fiéis, especialmente os indecisos em relação ao voto — querem conhecer a opinião definitiva dos candidatos à Presidência.

“Como católicos, como filhos de Deus, nós devemos dizer ao Brasil e a todos aqueles que desejam governar o Brasil, o que se espera de um homem ou de uma mulher pública”, anunciou Dom Vilson Basso, Bispo de Caxias (MA), no TJ Aparecida.

Pelo visto os presidenciáveis não terão como fugir da raia. Imagine o clima de tensão entre assessores e marqueteiros. As respostas precisam ser bem ensaiadas, para não gerar um possível estrago na reta final da campanha.

Não é fácil ser ecumênico quando se anseia governar o Brasil. De um lado estão os evangélicos em alerta. Do outro, católicos atentos. E há a pressão por manter o estado laico, sem que a interferência de nenhuma ideologia religiosa na condução do país.

“A igreja acompanha a situação do povo e acompanha por onde caminha a política nacional. Por isso tem de se manifestar e não pode se omitir em um momento tão importante”, explicou Dom Severino Clasen, Bispo de Caçador (SC), em entrevista à TV Aparecida.

O debate será promovido pela cúpula da Igreja Católica no dia 16, ao vivo a partir das 21h30, no Centro de Eventos Padre Vitor Coelho de Almeida, que fica no complexo do Santuário Nacional de Aparecida, no interior paulista.


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Gaúcho resolvido - Capitulo I

Gaúcho resolvido!

          A partir de hoje estarei publicando periodicamente um capitulo ou parte dele, do meu livro que leva o título acima. Espero comentários, críticas e sugestões visando levar o trabalho a um nível de qualidade mais elaborado. Por melhor que alguém esteja preparado, terá sempre o que aperfeiçoar na arte de escrever obras no campo literário ficcional. Conto com a colaboração dos leitores para corrigir deficiências na parte publicada além de ideias para os capítulos subsequentes. Resguardo-me o direito de decidir quais as sugestões irão figurar nos capítulos a serem escritos. Hoje temos o primeiro capítulo, onde aparece nosso personagem principal. Depois de concluido o trabalho, será reunido em um volume a ser publicado por uma editora e também na forma de ebook.  



Montaria em touro(vidavegetriana.com)

Gaudêncio das Neves.

            No município de São Borja, estado do Rio Grande do Sul, nasceu aos oito de março do ano de 1955, um menino, que na pia batismal, recebeu o nome Gaudêncio das Neves. Seus pais, Pedro Paulo das Neves e a esposa, Maria Conceição das Neves, convidaram para padrinhos os patrões Joaquim Monteiro e a esposa Ana Maria Monteiro. Vale dizer que Pedro Paulo era o braço direito de Joaquim, no trabalho da fazenda Santa Maria, tanto a lavoura de arroz, quanto a criação de gado de corte de alto padrão estavam a seu cargo.
Pedro Paulo supervisionava as equipes de trabalho em ambos os setores, transmitindo aos encarregados as ordens do patrão. Este passava boa parte do tempo em sua vivenda da cidade sede do município, ficando o cotidiano por conta de Pedro Paulo. Maria Conceição por sua vez supervisionava o setor leiteiro, encarregado de abastecer os empregados da fazenda com leite e seus derivados. O excedente era entregue à uma nascente indústria de laticínios local.
  Joaquim e Ana Maria, sentiram-se grandemente lisonjeados em ter o rebento de seus mais valiosos auxiliares por afilhado. Não faltavam presentes em todas as oportunidades como o natal, a páscoa, o aniversário e mesmo sem motivo especial, sempre encontravam razão para encher o pupilo de presentes.
O casal vinha acumulando frustrações nas tentativas de geraram um herdeiro. Recorreram a todos os meios ao alcance das suas posses. Consultaram médicos especialistas na capital Porto Alegre, mas nada acontecia. Já estavam atingindo a idade em que as probabilidades de fecundação se tornam ainda mais remotas. Ainda não estava em uso nessa época a técnica de fertilização in vitro. Começavam a inclinar-se pela adoção de uma criança. Ao se tornarem padrinhos do filho de seus empregados, diminuiu sua ansiedade por um filho. Transferiram para o afilhado o afeto que iriam dedicar ao filho e esqueceram a ideia de adoção. Tinham a quem se dedicar, como se fora o próprio filho. 
Assim a infância de Gaudêncio transcorreu entre comparecimento às aulas na escola que servia à fazenda, onde convivia com os filhos dos os outros empregados e também de alguns vizinhos, provenientes de propriedades menores existentes nas proximidades. Os pais souberam imprimir uma educação bastante rígida ao menino, tendo para isso o apoio dos padrinhos. Tudo isso tornou Gaudêncio um adolescente tranquilo e seu desenvolvimento em um jovem adulto ocorreu de forma razoavelmente harmoniosa. Não excluindo algumas travessuras, um ou outro ato de desobediência.
            Foi sempre um menino ativo. Gostava especialmente de cavalgar e não perdia oportunidade de se reunir aos peões nas lides com o gado. Aos catorze anos sabia manejar habilmente o laço e não se furtava a uma montaria em um potro xucro, o que lhe valeu algumas quedas, inclusive uma fratura no braço e uma luxação da mão esquerda. Nada disso o fazia desistir de ser peão, para desespero de sua mãe, que vivia cheia de apreensões pela integridade física do filho. Em parte isto se explica, pois tivera complicações pós-parto o que a tornara impossibilitada de ter mais filhos. Assim temia que alguma coisa mais grave acontecesse com o único que pudera gerar.
            Houve um período em que se interessou pelo cultivo do arroz e por dois anos, acompanhou todas as etapas do trabalho nos campos irrigados. Aprendeu a preparar a terra, plantar, controlar o mato, depois inundar os arrozais com água da represa e mantê-los assim até a maturação dos grãos. Tinha que saber o momento de retirar a água e aguardar a hora de por as máquinas para colher o cereal. Mostrou-se um aprendiz dedicado, recebendo numerosos elogios do encarregado dos arrozais.           
          Gaudêncio não faltava a nenhum fandango organizado na fazenda ou nas redondezas. Tornou-se exímio dançador e sua presença era apreciada pelas prendas sempre dispostas a bailar com o jovem. Mesmo aquelas que já estavam com mais idade, sentiam-se lisonjeadas em conceder uma contradança ao jovem dançarino. Havia pencas de chinocas interessadas em namorar com ele, apesar da pouca idade. Nos bailes do CTG, ocorria uma verdadeira disputa pela parceria com ele. Em diversas ocasiões ele foi campeão das competições de dança por equipe e também nas individuais.


Laçando um novilho(mtg-rs.blogspot.com).

            Nos rodeios, sua habilidade com o laço e na montaria do cavalo lhe trouxeram diversos prêmios e troféus. Chegou a participar de rodeios em outras localidades, onde também se destacou em diversas oportunidades. Cada vitória do filho era um motive de orgulho para os pais e, como não poderia deixar de ser, dos padrinhos. Afinal era tido por eles como o filho que Deus não lhes concedera ter.


Montaria em potro sem sela(atuacao20101.wordpress.com).

Montaria em cavalo xucro com sela(maisindaia.com.br).

            A madrinha fazia muito empenho em que Gaudêncio fosse viver por uns anos na cidade para cursar a escola e assim elevar seu grau de instrução, porém o menino não aceitava se afastar da vida da fazenda. Aquilo era como que um vício que fluía em seu sangue e não houve meio de convencê-lo a ingressar numa escola, depois de concluir o aprendizado das primeiras letras, saber fazer as contas básicas. Sempre dizia que já sabia suficiente para o que tinha precisão. Assim a vida seguiu, calejando o jovem a cada dia nas lides do campo e plantação.   

sábado, 6 de setembro de 2014

Se beber, não dirija! Também não entre no facebook!

Novo risco para os alcoólatras!

      Hoje ao ler a coluna Pelas ruas da cidade, de autoria do jornalista e escritor Edilson Pereira, no jornal Tribuna do Paraná, de 05/09/2014, me deparei com uma descoberta importante, feita pelo ilustre autor. Trata-se do relato de uma vivência que ele teve em um táxi de nossa cidade Curitiba. Vou transcrever aqui como ele redigiu em sua coluna. O crédito é inteiramente dele e acho importante compartilhar, para que mais pessoas tenham possibilidade de conhecer o que ele encontrou em suas andanças pela cidade. Aí vai o artigo que ele publicou. 

Se beber não dirija e muito menos entre no facebook.

    Entrei no táxi de Antônio de Souza Pinto. Ele estava de olho roxo. Perguntei se estava bem e ele disse que não. Fiquei quieto. Ele perguntou se eu não ia indagar sobre o olho roxo. Taxista se divide em duas categorias: os que gostam de falar e os que odeiam falar. Parece que há uma terceira categoria, um meio termo. Na realidade são os que pertencem a uma das duas categorias e fazem um esforço sobre-humano para serem gentis, falando pouco, tanto num caso como no outro. Pinto pertencia à categoria dos que gostam de falar. Então não adiantava fingir que não sabia e perguntei: O que aconteceu no olho, amigo? Chamar alguém de amigo não ofende. Pinto respondeu: "Foi o facebook". 

       Não entendi e pensei:" As pragas tecnológicas contaminam. Parece epidemia!". No ônibus todo mundo de fio conectado ao ouvido, ligado em outro universo, ouvindo música ou, pior, falando pelos cotovelos. Parece bando de loucos. E, depois do facebook, gente o tempo todo como galinhas tecnológicas catando milho no celular, no ônibus, na rua, nas filas, no parque, em todos os lugares, mandando mensagens quase sempre sem urgência e publicando mensagens sem interesse. O facebook faz parte disso. O motorista do ônibus tem facebook e avisa ao cobrador que adicionou a gostosa do financeiro e curte tudo o que ela publica, para ver se rola um lance legal. Normalmente não rola nada. Mas o cara está lá na maior curtição. 

        Agora Pinto diz que o facebook quebrou a sua cara. Como não queria fazer outra pergunta eu disse: "O facebook anda violento". Pinto contou que aquilo virou um poço de encrenca e está dando um tempo com o facebook. Sujeito ressabiado com rede social, ele disse que "a pior coisa do facebook é você chegar em casa, beber e entrar na rede para fazer comentários". Logo acrescentou:" Amigo, não faça isso se não quer arrumar encrenca ou tragédia". Concordei. Eu também já andei falando bobagem com quem não devia, surtei com uma dona que estava na maior alegria, curti posts de quem não conhecia e fiz gracinha com comentário de quem não sabia. Andei desconfiando que tinha gente de cara virada comigo. Mas com Pinto o negócio foi cruel. 

          Depois de trabalhar até meia-noite, Pinto chegou em casa e tomou todas. Em seguida, entrou na linha do tempo de Adalice e se engraçou com um selfie da loirinha num tubinho preto. Loirinha essa que sabia ser irmã de seu amigo Demerval. Na manhã seguinte ela contou tudo ao irmão, que não fez cara feia, nem disse nada. Assim que chegou ao ponto de táxi e encontrou Pinto com aquela cara amassada de ressaca, simplesmente enfiou a mão no coitado. O olho ficou roxo. Para Pinto largar de ser besta e respeitar as irmãs dos outros. Inclusive no facebook. Pinto tentou reagir, mas estava atordoado e não se lembrava do que dissera para a irmã do amigo. Fez cara de quem não gostou, saiu de cena e foi pegar seu iPhone para conferir o que escrevera. 

         Quando viu as safadezas que havia escrito, chamou Demerval num canto e disse: "Foi mal, cara. Tô morrendo de vergonha da Adalice. Fala para ela me perdoar. É que tomei umas a mais ontem, sabe, aí a gente perde a noção". Demerval depois de baixar o braço no amigo estava calmo e aconselhou: "Se beber não dirija e muito menos entre no facebook! Você ainda vai acabar levando um tiro". Ali no carro, Pinto disse: " Agora eu estou assim, de olho roxo e longe do face". Eu fiquei quieto pensando que a chamada plataforma é coisa inteligente e barata. Converso com uma amiga que está em Londres, outra está em Paris e um colega está no Japão. Tudo a custo zero. Não tem nada mais democrático. Mas o diacho que a maioria das pessoas escreve bobagens, posta tolices sobre política, sexo e religião. Como se o facebook fosse mudar a cabeça de alguém. Depois de contar sua história, Pinto fez o resto da viagem quieto, refletindo sobre como ia viver de agora em diante sem poder olhar o face. Não vai ser fácil. Mas será melhor que levar um soco no olho. Que não é coisa bacana, embora seja um aviso importante.  

Edilson Pereira, jornalista e escritor. Jornal Tribuna do Paraná, 05/09/2014

          Olhem só  o que pode resultar de umas bebidinhas a mais. Se dirigir, pode dar uma trombada num poste ou outro carro, atropelar alguém, além de cair numa blitz da polícia de trânsito e ser multado, ter o carro apreendido e por aí vai. Se entrar no facebook, corre o risco de falar o que não deve a quem não gosta e o resultado é uma verdadeira "trombada" na munheca de um irmão enfezado da pessoa que se sentiu ofendida. Pode até ser que nem isso haja acontecido, mas contou ao irmão e esse sim ficou muito "puto" e foi tirar satisfação com o amigo. Sugiro que de hoje em diante o slogan passe a ser:
                 
                     "Se beber não dirija e não entre no facebook". 

     Boas lições tem a vida a nos ensinar. Cabe a nós estar atentos e tomar nota cuidadosamente para não sofrer as consequências de atos, aparentemente inocentes, mas que podem trazer consequências sérias. Umas palavras digitadas de modo impensado podem causar um desgosto considerável. Depende apenas de quem está do outro lado da linha e principalmente se tem um irmão ou marido ciumento. Garanto que muita gente irá se partir de dar risada, mas o Pinto, com seu olho roxo não achou nenhuma graça da história. Ao contrário, ficou foi é muito chateado e triste. 

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Ódio milenar.

Palestinos(Hammas) x Israel.


           O moderno estado de Israel, tem a mesma idade que eu. Foi criado por resolução da ONU em agosto de 1948, sendo que eu nasci em 23 de dezembro do mesmo ano. Em 1967, durante meu serviço militar, ocorreu a guerra dos seis dias, vencida por Israel que conquistou vasta área de território aos vizinhos árabes, especialmente na região até hoje em litígio na Faixa de Gaza, ocupada pelos palestinos. Desde essa época venho acompanhando, ano após ano, as agressões de lado a lado. Alguns intervalos com relativa paz, porém sempre um verdadeiro caldeirão, pronto a explodir ao menor sinal de agressão, ou mesmo gesto que possa ser interpretado como tal. 

             Recentemente, impulsionado pela curiosidade, despertada por frequentes comentários ouvidos sobre o conteúdo pacífico do Alcorão, o livro sagrado do Islam, religião dos muçulmanos, comecei a ler esse livro. Estou no momento na parte dos comentários escritos por um exegeta, explicando e interpretando os milhares de versículos das mais de 100 Suratas que compõe a parte da assim denominada revelação divina ao profeta Maomé(Mohamad). O que chamou minha atenção é a quantidade de vezes que são mencionados Abraão, Jacó, José do Egito, Lot, Jó, Moises, Jesus Cristo, sua mãe Maria, Davi, Salomão, além de outras figuras judaicas/cristãs. Os mentores do islamismo conhecem com perfeição as escrituras judaicas, cristãs e outras. Uma nota constante é a afirmação da mensagem de amor, caridade e convivência pacífica com os não muçulmanos. Isso está em franco contraste com as mensagens de ódio divulgadas nos meios de comunicação pelos combatentes de grupos radicais islâmicos. Os crimes que assistimos nas últimas semanas sendo divulgados ao vivo contra jornalistas americanos e ingleses, são abertamente contrários à mensagem encontrada no livro sagrado e sua interpretação. 

              O ódio parece remontar ao tempo de Ismael, filho de Abraão com a escrava e depois Isac, filho de Sara, sua esposa. Com o nascimento de Isac, Abraão foi levado a rejeitar Ismael, tendo sua mãe enfrentado muitas dificuldades para o sustentar e lhe dar educação. Durante séculos antes da era cristã, os israelitas e os descendentes de Ismael (árabes) conviveram ora em paz, ora em estado de guerra. Também compartilharam períodos de dominação babilônica e outros povos. Na época de Jesus Cristo, estava toda a região sob o domínio romano. Cerca de quatro séculos depois surgiu o profeta Maomé e com ele foi implantado o islamismo. Nesta época a região estava sob o domínio quase pleno dos árabes, depois da dispersão dos judeus pelo mundo (Diáspora). 

            O surgimento do moderno estado de Israel provocou o desalojamento de parte da população palestina de suas terras, o que criou certamente resistência e gerou muitos conflitos. É possível dizer sem medo de cometer um erro grave que Israel viveu poucos ou nenhum dia de paz completa desde seu surgimento em 1948. Há sempre um estado de prontidão dos reservistas, quer masculinos como femininos. Não sei se atualmente ainda acontece isso, mas alguns anos passados, os reservistas guardavam em suas casas o fardamento básico, bem como as armas, permitindo uma rápida mobilização e pronto estado de prontidão para o combate. Depois de 1967, aos poucos foram sendo estabelecidos tratados de paz com os demais estados árabes da região, fixados os limites dos territórios, devolvidos partes conquistadas por Israel, permanecendo apenas o conflito na Faixa de Gaza. 

            Assistimos constantemente à divulgação de parte dos palestinos de acusações feitas à Israel que teria atacado com bombas e mísseis populações civis. De outro lado Israel relata pequenos atos de hostilidade praticados quase que diariamente em diversos locais do território, bem como a utilização de crianças, mulheres e idosos como escudos humanos. Colocam-nos sobre telhados, em terraços e outras posições que os exponham aos ataques israelenses, sendo que por trás, nas mesmas instalações estão os lançadores de mísseis utilizados pelos combatentes do Hammas. Dá a perfeita noção de que, enquanto não houver um completo desarmamento do espírito, seja de um lado ou de outro, preferencialmente de ambos, não será possível estabelecer uma paz duradoura na região. 

          As acusações de ambas as partes em conflito dirigidas aos opositores, aparentam justificar as ações de guerra e o resultado é o que assistimos quase diariamente nos meios de comunicação. Crianças, mulheres e velhos sendo retirados dos escombros dos bombardeios. Visto dessa forma, isso colocaria Israel como um agressor cruel e sanguinário. Quando olhamos as imagens mostradas por Israel, vemos que as aparentes vítimas inocentes dos ataques, foram colocadas ali propositalmente para disfarçar a realidade. Destinam-se a proteger as armas de agressão a Israel. Não sou de forma alguma favorável a ação israelense, pois ela sempre é contundente e parece ser bem desproporcional com a agressão sofrida. 

            Quem quiser saber o quanto muçulmanos, judeus e cristãos estão unidos pelas mesmas crenças, apenas alguns detalhes os separam e colocam em campos opostos, aceite minha sugestão. Leia o Alcorão, não com o fim de se converter, mas para saber que na verdade não há motivos para tamanha divergência e agressividade de alguns grupos radicais. Ao longo da história temos assistido a várias demonstrações de fanatismo religioso que levaram sempre à prática de um grande número de atrocidades. O que estamos assistindo hoje no Iraque, nada mais é do que a repetição do que já ocorreu no passado em outros lugares. No Afeganistão, países africanos também temos assistido a ocorrência de crimes horrendos em nome de Alá. Isso não encontra fundamento nos escritos de Maomé. É uma interpretação errônea de pequenos trechos, sem ver o contexto geral e completo. Cometem-se um número de crimes horrendos em nome de Deus, da fé, da religião. É puro fanatismo, jamais sugerido ou determinado pela revelação divina nos livros sagrados de nenhuma religião.

           Sugiro aos dirigentes dos órgãos como ONU e assemelhados que se empenhem em levar um pouco de racionalidade aos dirigentes políticos das nações em conflitos internos ou com os vizinhos, que se coloquem na posição das vítimas inocentes que tombam tanto de um quanto de outro lado. Pouco importa o número delas. Uma única vida humana inocente ceifada por projéteis, bombas e outros artefatos deveria ser motivo suficiente para frear os ímpetos de agressividade. Mas infelizmente, para o mal dos inocentes que a cada dia sucumbem nas áreas de conflito, ninguém pratica a lei do amor, do perdão e misericórdia. Enquanto isso não vier acontecer, dificilmente teremos paz de verdade e duradoura.