Gaúcho resolvido!
Capítulo III
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| Sede de fazenda. |
Margarida Maria Vargas.
Antes de Fulgêncio
tomar parte do conflito contra Francisco Solano Lopes, houvera tempo de nascer
a única filha do casal, Margarida Maria Vargas. O pai partira para a guerra
quando a menina contava com alguns meses de vida. Dessa forma ela muito pouco,
praticamente nada, sabia dele. Crescera aos cuidados da mãe e sob a tutela constante
de uma criada de confiança, a Siá Balbina. Era de idade indefinida e vivia na
fazenda desde que Carlota podia se lembrar. De uma dedicação canina à família,
era parte dela com o são os móveis, mesas, cadeiras e outros objetos. Tomava
conta da pequena Margarida como se fosse uma joia rara.
É fácil entender que a
menina cresceu com algumas regalia nem sempre disponíveis na infância. Mesmo
assim, havia muitas limitações causadas pelo estado de beligerância em que
vivia o país, a escassez de alguns mantimentos, obrigando a fazer um controle
rigoroso para evitar a falta do essencial. Estava com a idade de 8 para 9 anos
quando Francisco foi guindado ao cargo de capataz. Em seus folguedos gostava de
ver os peões lidando com o gado, assistir às sessões de doma de potros, sempre
com Balbina nos seus calcanhares. Cedo reparou no garboso capataz que a mãe
nomeara. Percebia que se tratava de um homem ainda jovem, mas de um senso prático
admirável. Tinha sempre uma maneira mais suave e justa de resolver qualquer
diferença porventura existente em qualquer situação.
Em uma dessas ocasiões,
Francisco observou a menina olhando fixamente para ele e decidiu conversar com
ela. Falaram de amenidades, mas ela não se deteve muito tempo no assunto. Em instantes
estava indagando sobre vários assuntos relativos ao trabalho, causando espanto
em Francisco. Mesmo assim respondeu com a maior delicadeza deixando a menina
encantada com sua polidez. Passou a nutrir sincera admiração pelo jovem capataz.
Sua tenra idade ainda não lhe inspirava outra forma de sentimento com relação
ao homem, salvo a admiração por alguém que ela via como uma espécie de irmão
mais velho. Ela nem irmão ou irmã tinha, todavia imaginou que, se tivesse, ele
seria daquele jeito.
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| Peão tangendo gado. |
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| Peões reunindo o gado. |
As conversas entre eles
foram ficando mais frequentes e com o tempo passando, não tardou a ter início o
desenvolvimento das características femininas da criança. Ela chegava a
puberdade. Seu corpo começou a sofrer transformações que de início a
incomodavam, pois implicavam em roupas que não serviam mais, seu andar ficou
desajeitado, sensações estranhas fervilhavam em seu íntimo e ela não sabia o
seu significado. Ao perceber as mudanças na menina, Balbina tentou explicar com
seu jeito simples o que acontecia e ela no começo ficou satisfeita. Um dia
decidiu perguntar à mãe o que significava toda essa mudança.
A mãe Carlota, andara bastante
ocupada em administrar a fazenda no aspecto financeiro, esquecendo-se quase que
completamente de que tinha uma filha em vias de se transformar em menina moça.
Parou por um instante, chamou Margarida para sentar-se numa confortável
poltrona e calmamente explicou à garota o que estava ao seu alcance entender
naqueles dias iniciais. Satisfeita com os esclarecimentos, levou ainda a
promessa de novas conversas quando houvesse alguma coisa em que tivesse dúvidas.
Sabia agora que estava se tornando mulher. Em algum tempo não seria mais uma
menina e, ao término desse processo, poderia ser mãe. Estaria apta a casar-se,
ter filhos e portanto ter sua própria família.
Essas informações foram
penetrando aos poucos na cabeça ainda infantil, mas iniciando a transição para
a adolescência e uma infinidade de sonhos povoou sua imaginação. Como seria o
seu marido que um dia seria seu companheiro? Ficou pensando nos peões que viviam
com as famílias nas fazendas e eles foram passando um a um diante de sua mente.
De repente uma figura se destacou e ela sentiu o pequeno corpo estremecer.
Tivera a visão de Francisco, garbosamente vestido em seus trajes típicos,
convidando-a para dançar. Depois um devaneio prolongado levou-a ao momento em
que ele pedia à sua mãe permissão para ficarem noivos e depois via-se
caminhando para o altar da pequena capela existente nos domínios da fazenda. Lá
estava à sua espera Francisco em um terno muito bonito, perfeitamente barbeado,
com um bigode bem aparado. Um peão já idoso a levava pela mão, em substituição
ao pai que perdera ainda tão criança.
Espantou os sonhos e
voltou à realidade. Continuou vivendo sua vida de criança/adolescente e notava
a cada dia alguma coisa diferente. Seus pequenos seios começaram a entumescer,
ficando por vezes levemente doloridos. Notou umas penugens surgindo em torno
dos órgãos genitais e foi perguntar à mãe se isso era normal. Sentiu-se
insegura especialmente com relação às sensações de dor. Poderia significar
alguma doença e ela sentia verdadeiro pavor disso. Nunca ficara realmente
doente, apenas um ou outro desarranjo estomacal devido a algum exagero de
alimentação, alimentos indigestos e apenas isso. Um ou outro resfriado, nem
febre tivera que pudesse lembrar. Uma dor mesmo de verdade ela nunca soubera o
que significava.
Os anos passaram, Margarida virou mocinha e depois se
transformou em uma jovem mulher, no pleno vigor de seus 15 anos. O processo de
transformação da menina que fora em mulher, estava quase complete. Sua altura
era media, cabelos castanho escuros, longos e levemente ondulados, o rosto
ovalado, denotando uma descendência espanhola presente nas gerações passadas.
Chegou o dia em que faria sua estréia nos fandangos realizados na fazenda e nas
propriedades vizinhas. A mãe, agora já em situação financeira estabilizada, fez
questão de prover uma indumentária adequada para a ocasião. Ordenou a contratação
de um grupo musical da cidade, mas especializado em músicas típicas, o galpão
estava com assoalho novo e iria ser inaugurado naquele fandango. Não desejava
ver a filha, ao final do baile, completamente empoeirada por dançar no chão
batido.
O baile começou e em dado momento, Margarida e mais
cinco mocinhas das redondezes, bem como filhas dos peões, foram apresentadas à
comunidade. Pediu-se aos músicos para tocarem uma valsa no capricho e as “debutantes”
dançaram com os pais. Margarida, na falta do pai, convidara Francisco para dançar
com ela. Ele inicialmente tentara se esquivar, mas ela, com seu jeito meigo,
embora convincente e firme fez com que aceitasse. Estava de roupa nova,
especialmente comprada para a ocasião e os dois dançaram lindamente. Carlota
ficou encantada com o belo par que seu capataz formava com a filha e sentiu
que, não ficaria surpresa se dali resultasse algo mais que uma mera dança de
baile de quinze anos. Mas deixaria o tempo correr. Não sentia pressa em ver a
filha casada. Era jovem e tinha ainda muito que aprender sobre prendas domésticas.
Não que pensasse em vê-la labutando numa cozinha igual criada, mas era necessário
saber fazer, para ter aptidão para comandar as serviçais.
O
baile terminou depois de muitas danças, sendo que em diversas ocasiões
Francisco a convidara novamente e ela não recusara. Sentia-se flutuar quando
ele a conduzia com seu passo firme, seu corpo forte e flexível, mesmo nos
passos das danças mais complicadas. Chegou à sala, com o rosto afogueado devido
ao calor, bem como ao esforço de seguidas vezes que dançara, tanto com
Francisco como outros rapazes que a havia convidado. O cansaço era tanto que
mal teve forças para retirar os sapatos, trocar o vestido, fazer uma ligeira higiene
noturna e caiu na cama. Dormiu um sono agitado por sonhos românticos. Ora era
um jovem desconhecido que a levava pela mão, ora outro, mas no fim sempre o
resto se transformava no de Francisco. Em certo momento ficou plenamente
acordada e ficou imaginando se estaria ficando seriamente apaixonada pelo
capataz. O que sua mãe pensaria disso? Aceitaria receber o capataz, como genro?
Tinha elevada estima por ele, mas daí a tornar-se membro da família, era uma
grande distância. Estava divagando e daria tempo ao tempo. No momento oportuno
conversaria com a mãe e ela lhe ajudaria a tomar a decisão acertada. Confiava
cegamente na lucidez das decisões da mãe.
Mas seria tarefa da mãe decidir nessa questão? Não era
a ela que cabia tomar a atitude final num assunto dessa natureza? Bem, estava
cansada e deixaria para pensar no dia seguinte ou mesmo depois de alguns dias.
Por ora precisava recuperar as energias despendidas no baile que for a deveras
divertido. Nunca sentira nada igual. Agora era mulher, era uma prenda e poderia
ser requestada por qualquer peão guapo que aparecesse na redondeza. Havia muito
que viver antes de qualquer decisão mais séria com relação ao resto de sua
vida. Estava no limiar de sua existência. Por quê se preocupar já em casamento?
Filhos? Família? Não que isso estivesse for a de suas cogitações, mas não para
o momento imediato. Era um projeto de longo prazo.
Na manhã seguinte, estava ali, curiosa e perguntadeira
sua querida Siá Balbina. Estava bem idosa, as consequências de uma vida longa e
trabalhosa estavam visíveis em suas juntas, seu rosto enrugado. Somente seu
olhos vivos, atentos e perspicazes não haviam mudado. Bastou olhar para sua “menina”,
era como ela a chamava, e percebeu que havia no rosto um brilho diferente. Era
ar de coração apaixonado, disso não tinha dúvida. Não fez no entanto perguntas.
Queria esperar que a menina falasse espontaneamente. E lhe daria tempo para
isso. Ajudou-a a levantar, escolher a roupa para vestir depois de lavar o rosto
e pentear os cabelos sedosos. O tempo passou e Margarida nada falou, deixando
Balbina cada vez mais curiosa.
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| Gado na mangueira. |
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| Lago cercado perto de propriedade |
Em determinado dia da semana seguinte, surpreendeu-se
ao ver sua pupila caminhar, de modo bem fagueiro, uma flor no cabelo, um
vestido leve e florido, rumando na direção da mangueira onde Francisco estava
supervisionando a apartação de bezerros para engorda. Ela se aproximou como
quem não quer nada e ficou observando sem dizer nada. Num momento de
relaxamento entre um comando e outro aos subalternos, Francisco reparou em
Margarida e lhe disse um sorridente:
-
Bom dia senhorita!
-
Bom dia, Francisco!
-
Como vai minha prenda?
-
Eu vou bem e você?
-
Estou ótimo. Só está um pouco quente. É bom se
proteger ali na sombra ou vai queimar a pele.
-
Estou precisando tomar um pouco de sol.
-
Mas não carece tomar sol demais, senhorita. Nós também
vamos parar logo, pois o sol está muito forte. Os animais ficam muito cansados.
-
Vou sentar ali naquele banco para observer.
Francisco em alguns minutos terminava o serviço com o
gado, foi até um tanque próximo, lavou o rosto, molhou o cabelo e passou os
dedos a guisa de um pente. Depois colocou de volta o chapé e veio sentar-se próximo
à Margarida, depois de lhe pedir licença.
-
Nem precise pedir licença, Francisco. Você é como da
família.
-
Nem me fale em algo assim, senhorita. Conheço meu
lugar e não quero faltar-lhe como respeito.
-
Não é necessário ser tão formal. Eu quero ser seu
amigo. Quase não tenho com quem conversar e sinto falta de alguém que sente,
converse. Alguém diferente da mãe, Siá Balbina.
-
Elas vão ficar tristes se a ouvirem falar isso.
-
Vão não. Eu explico a elas e vão entender.
-
Eu não quero complicações. Estou muito satisfeito com
meu trabalho.
-
Fica tranquilo que não vou lhe causar embaraços. Até
mais tarde, que deve estar na hora do almoço. Acabei de ouvir Siá Balbina
chamando. Até logo.
-
Inté, senhorita.
Margarida levantou, deu adeus com a mão e foi para casa,
onde de fato o almoço estava servido. Lavou as mãos e o rosto rapidamente indo
sentar-se para a refeição.
-
Onde foi que você esteve, Margarida? – perguntou Carlota.
-
Estava lá perto da mangueira vendo a apartação de
bezerros.
-
Acho que nossa menina está de olho enrabichado, sinhá
Carlota.
-
Nem fale uma coisa dessas, Siá Balbina. Eu ainda sou
criança.
-
Criança você não é mais faz muito tempo, Margarida.
Dali em diante ocuparam o tempo para saborear a refeição
que estava muito bem preparada. Depois foram para seus aposentos para uns
miniutos de repouso e mais tarde retomariam os afazeres rotineiros.




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