quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Gaucho resolvido! - Capítulo III



Gaúcho resolvido!

Capítulo III


Sede de fazenda.



Margarida Maria Vargas.


            Antes de Fulgêncio tomar parte do conflito contra Francisco Solano Lopes, houvera tempo de nascer a única filha do casal, Margarida Maria Vargas. O pai partira para a guerra quando a menina contava com alguns meses de vida. Dessa forma ela muito pouco, praticamente nada, sabia dele. Crescera aos cuidados da mãe e sob a tutela constante de uma criada de confiança, a Siá Balbina. Era de idade indefinida e vivia na fazenda desde que Carlota podia se lembrar. De uma dedicação canina à família, era parte dela com o são os móveis, mesas, cadeiras e outros objetos. Tomava conta da pequena Margarida como se fosse uma joia rara.
            É fácil entender que a menina cresceu com algumas regalia nem sempre disponíveis na infância. Mesmo assim, havia muitas limitações causadas pelo estado de beligerância em que vivia o país, a escassez de alguns mantimentos, obrigando a fazer um controle rigoroso para evitar a falta do essencial. Estava com a idade de 8 para 9 anos quando Francisco foi guindado ao cargo de capataz. Em seus folguedos gostava de ver os peões lidando com o gado, assistir às sessões de doma de potros, sempre com Balbina nos seus calcanhares. Cedo reparou no garboso capataz que a mãe nomeara. Percebia que se tratava de um homem ainda jovem, mas de um senso prático admirável. Tinha sempre uma maneira mais suave e justa de resolver qualquer diferença porventura existente em qualquer situação.
            Em uma dessas ocasiões, Francisco observou a menina olhando fixamente para ele e decidiu conversar com ela. Falaram de amenidades, mas ela não se deteve muito tempo no assunto. Em instantes estava indagando sobre vários assuntos relativos ao trabalho, causando espanto em Francisco. Mesmo assim respondeu com a maior delicadeza deixando a menina encantada com sua polidez. Passou a nutrir sincera admiração pelo jovem capataz. Sua tenra idade ainda não lhe inspirava outra forma de sentimento com relação ao homem, salvo a admiração por alguém que ela via como uma espécie de irmão mais velho. Ela nem irmão ou irmã tinha, todavia imaginou que, se tivesse, ele seria daquele jeito.

Peão tangendo gado.

Peões reunindo o gado.


            As conversas entre eles foram ficando mais frequentes e com o tempo passando, não tardou a ter início o desenvolvimento das características femininas da criança. Ela chegava a puberdade. Seu corpo começou a sofrer transformações que de início a incomodavam, pois implicavam em roupas que não serviam mais, seu andar ficou desajeitado, sensações estranhas fervilhavam em seu íntimo e ela não sabia o seu significado. Ao perceber as mudanças na menina, Balbina tentou explicar com seu jeito simples o que acontecia e ela no começo ficou satisfeita. Um dia decidiu perguntar à mãe o que significava toda essa mudança.
            A mãe Carlota, andara bastante ocupada em administrar a fazenda no aspecto financeiro, esquecendo-se quase que completamente de que tinha uma filha em vias de se transformar em menina moça. Parou por um instante, chamou Margarida para sentar-se numa confortável poltrona e calmamente explicou à garota o que estava ao seu alcance entender naqueles dias iniciais. Satisfeita com os esclarecimentos, levou ainda a promessa de novas conversas quando houvesse alguma coisa em que tivesse dúvidas. Sabia agora que estava se tornando mulher. Em algum tempo não seria mais uma menina e, ao término desse processo, poderia ser mãe. Estaria apta a casar-se, ter filhos e portanto ter sua própria família.
            Essas informações foram penetrando aos poucos na cabeça ainda infantil, mas iniciando a transição para a adolescência e uma infinidade de sonhos povoou sua imaginação. Como seria o seu marido que um dia seria seu companheiro? Ficou pensando nos peões que viviam com as famílias nas fazendas e eles foram passando um a um diante de sua mente. De repente uma figura se destacou e ela sentiu o pequeno corpo estremecer. Tivera a visão de Francisco, garbosamente vestido em seus trajes típicos, convidando-a para dançar. Depois um devaneio prolongado levou-a ao momento em que ele pedia à sua mãe permissão para ficarem noivos e depois via-se caminhando para o altar da pequena capela existente nos domínios da fazenda. Lá estava à sua espera Francisco em um terno muito bonito, perfeitamente barbeado, com um bigode bem aparado. Um peão já idoso a levava pela mão, em substituição ao pai que perdera ainda tão criança.
            Espantou os sonhos e voltou à realidade. Continuou vivendo sua vida de criança/adolescente e notava a cada dia alguma coisa diferente. Seus pequenos seios começaram a entumescer, ficando por vezes levemente doloridos. Notou umas penugens surgindo em torno dos órgãos genitais e foi perguntar à mãe se isso era normal. Sentiu-se insegura especialmente com relação às sensações de dor. Poderia significar alguma doença e ela sentia verdadeiro pavor disso. Nunca ficara realmente doente, apenas um ou outro desarranjo estomacal devido a algum exagero de alimentação, alimentos indigestos e apenas isso. Um ou outro resfriado, nem febre tivera que pudesse lembrar. Uma dor mesmo de verdade ela nunca soubera o que significava.
Os anos passaram, Margarida virou mocinha e depois se transformou em uma jovem mulher, no pleno vigor de seus 15 anos. O processo de transformação da menina que fora em mulher, estava quase complete. Sua altura era media, cabelos castanho escuros, longos e levemente ondulados, o rosto ovalado, denotando uma descendência espanhola presente nas gerações passadas. Chegou o dia em que faria sua estréia nos fandangos realizados na fazenda e nas propriedades vizinhas. A mãe, agora já em situação financeira estabilizada, fez questão de prover uma indumentária adequada para a ocasião. Ordenou a contratação de um grupo musical da cidade, mas especializado em músicas típicas, o galpão estava com assoalho novo e iria ser inaugurado naquele fandango. Não desejava ver a filha, ao final do baile, completamente empoeirada por dançar no chão batido.
O baile começou e em dado momento, Margarida e mais cinco mocinhas das redondezes, bem como filhas dos peões, foram apresentadas à comunidade. Pediu-se aos músicos para tocarem uma valsa no capricho e as “debutantes” dançaram com os pais. Margarida, na falta do pai, convidara Francisco para dançar com ela. Ele inicialmente tentara se esquivar, mas ela, com seu jeito meigo, embora convincente e firme fez com que aceitasse. Estava de roupa nova, especialmente comprada para a ocasião e os dois dançaram lindamente. Carlota ficou encantada com o belo par que seu capataz formava com a filha e sentiu que, não ficaria surpresa se dali resultasse algo mais que uma mera dança de baile de quinze anos. Mas deixaria o tempo correr. Não sentia pressa em ver a filha casada. Era jovem e tinha ainda muito que aprender sobre prendas domésticas. Não que pensasse em vê-la labutando numa cozinha igual criada, mas era necessário saber fazer, para ter aptidão para comandar as serviçais.
            O baile terminou depois de muitas danças, sendo que em diversas ocasiões Francisco a convidara novamente e ela não recusara. Sentia-se flutuar quando ele a conduzia com seu passo firme, seu corpo forte e flexível, mesmo nos passos das danças mais complicadas. Chegou à sala, com o rosto afogueado devido ao calor, bem como ao esforço de seguidas vezes que dançara, tanto com Francisco como outros rapazes que a havia convidado. O cansaço era tanto que mal teve forças para retirar os sapatos, trocar o vestido, fazer uma ligeira higiene noturna e caiu na cama. Dormiu um sono agitado por sonhos românticos. Ora era um jovem desconhecido que a levava pela mão, ora outro, mas no fim sempre o resto se transformava no de Francisco. Em certo momento ficou plenamente acordada e ficou imaginando se estaria ficando seriamente apaixonada pelo capataz. O que sua mãe pensaria disso? Aceitaria receber o capataz, como genro? Tinha elevada estima por ele, mas daí a tornar-se membro da família, era uma grande distância. Estava divagando e daria tempo ao tempo. No momento oportuno conversaria com a mãe e ela lhe ajudaria a tomar a decisão acertada. Confiava cegamente na lucidez das decisões da mãe.
Mas seria tarefa da mãe decidir nessa questão? Não era a ela que cabia tomar a atitude final num assunto dessa natureza? Bem, estava cansada e deixaria para pensar no dia seguinte ou mesmo depois de alguns dias. Por ora precisava recuperar as energias despendidas no baile que for a deveras divertido. Nunca sentira nada igual. Agora era mulher, era uma prenda e poderia ser requestada por qualquer peão guapo que aparecesse na redondeza. Havia muito que viver antes de qualquer decisão mais séria com relação ao resto de sua vida. Estava no limiar de sua existência. Por quê se preocupar já em casamento? Filhos? Família? Não que isso estivesse for a de suas cogitações, mas não para o momento imediato. Era um projeto de longo prazo.
Na manhã seguinte, estava ali, curiosa e perguntadeira sua querida Siá Balbina. Estava bem idosa, as consequências de uma vida longa e trabalhosa estavam visíveis em suas juntas, seu rosto enrugado. Somente seu olhos vivos, atentos e perspicazes não haviam mudado. Bastou olhar para sua “menina”, era como ela a chamava, e percebeu que havia no rosto um brilho diferente. Era ar de coração apaixonado, disso não tinha dúvida. Não fez no entanto perguntas. Queria esperar que a menina falasse espontaneamente. E lhe daria tempo para isso. Ajudou-a a levantar, escolher a roupa para vestir depois de lavar o rosto e pentear os cabelos sedosos. O tempo passou e Margarida nada falou, deixando Balbina cada vez mais curiosa.


Gado na mangueira.

Lago cercado perto de propriedade

Em determinado dia da semana seguinte, surpreendeu-se ao ver sua pupila caminhar, de modo bem fagueiro, uma flor no cabelo, um vestido leve e florido, rumando na direção da mangueira onde Francisco estava supervisionando a apartação de bezerros para engorda. Ela se aproximou como quem não quer nada e ficou observando sem dizer nada. Num momento de relaxamento entre um comando e outro aos subalternos, Francisco reparou em Margarida e lhe disse um sorridente:
-          Bom dia senhorita!
-          Bom dia, Francisco!
-          Como vai minha prenda?
-          Eu vou bem e você?
-          Estou ótimo. Só está um pouco quente. É bom se proteger ali na sombra ou vai queimar a pele.
-          Estou precisando tomar um pouco de sol.
-          Mas não carece tomar sol demais, senhorita. Nós também vamos parar logo, pois o sol está muito forte. Os animais ficam muito cansados.
-          Vou sentar ali naquele banco para observer.

Francisco em alguns minutos terminava o serviço com o gado, foi até um tanque próximo, lavou o rosto, molhou o cabelo e passou os dedos a guisa de um pente. Depois colocou de volta o chapé e veio sentar-se próximo à Margarida, depois de lhe pedir licença.
-          Nem precise pedir licença, Francisco. Você é como da família.
-          Nem me fale em algo assim, senhorita. Conheço meu lugar e não quero faltar-lhe como respeito.
-          Não é necessário ser tão formal. Eu quero ser seu amigo. Quase não tenho com quem conversar e sinto falta de alguém que sente, converse. Alguém diferente da mãe, Siá Balbina.
-          Elas vão ficar tristes se a ouvirem falar isso.
-          Vão não. Eu explico a elas e vão entender.
-          Eu não quero complicações. Estou muito satisfeito com meu trabalho.
-          Fica tranquilo que não vou lhe causar embaraços. Até mais tarde, que deve estar na hora do almoço. Acabei de ouvir Siá Balbina chamando. Até logo.
-          Inté, senhorita.

Margarida levantou, deu adeus com a mão e foi para casa, onde de fato o almoço estava servido. Lavou as mãos e o rosto rapidamente indo sentar-se para a refeição.
-          Onde foi que você esteve, Margarida? – perguntou Carlota.
-          Estava lá perto da mangueira vendo a apartação de bezerros.
-          Acho que nossa menina está de olho enrabichado, sinhá Carlota.
-          Nem fale uma coisa dessas, Siá Balbina. Eu ainda sou criança.
-          Criança você não é mais faz muito tempo, Margarida.

Dali em diante ocuparam o tempo para saborear a refeição que estava muito bem preparada. Depois foram para seus aposentos para uns miniutos de repouso e mais tarde retomariam os afazeres rotineiros. 

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