Tentando conquistar o “sogro”.
Enquanto coronel Onofre tirava seu cochilo, José Silvério
apreciava o panorama a perder de vista dos cafezais, cobrindo encostas e
baixadas. Um ou outro ponto de cor diferente, onde havia uma afloração de
pedras, um morro mas íngreme e impróprio para o cultivo, quebrando a monotonia
da paisagem. Maria Luiza e Isabel se ocuparam em deixare a cozinha arrumada
para ser usada a qualquer momento em que fosse preciso. Trabalhavam de modo
sincronizado, levando ao término das tarefas em pouco tempo.
Após a conclusão, Maria Luiza foi até o quarto e viu
Onofre ressonando suavemente. Deixou-o quieto e veio até a varanda, sentando-se
em uma confortável cadeira de balanço que ali estava colocada. Ao ver que o
advogado estava ali e também cochilava, pensou em se retirar para não perturbar
lhe o descanso. Ao se mover ele acordou e falou:
- Desculpe. Eu não havia percebido que a senhora
estava aí, dona Maria Luiza.
- Tem nada não, doutor. Eu já ia me retirar para não
lhe incomodar.
- Nada disso, senhora. Será um prazer conversar com a
senhora. Eu cochilei um momento, mas não tenho o hábito de dormir após o
almoço.
- Eu raras vezes também deito uns minutos. Geralmente
aproveito para pegar um trabalho manual. Faço croche, bordado. Costuro um
pouco, mas apenas o suficiente para o gasto.
- São atividades que mantem as mãos e mente ocupados.
- Minha filha é mais prendada. Aprendeu na escola na
cidade a fazer pinturas. Está agora lá no atelier dela trabalhando no quadro
que está quase pronto.
- Ela se formou em quê, senhora?
- Formou-se professor, mas não tem onde exercer a
profissão. Só se for lá para a vila, mas é longe. O diploma por enquanto está
enfeitando a parede apenas.
- Para as mulheres ainda é restrito o campo de
trabalho. São poucas que conseguem ingressar em cursos mais concorridos. Acho
que não é falta de capacidade, mas sim, incentive para enfrentar.
- A Isabel queria ser arquiteta, mas para isso ia precisar
morar em Belo Horizonte e o pai, muito ciumento, não concordou com isso. Disse
que tinha a fazenda para sustentar ela e não ia precisarr se arriscar na cidade
grande. Sabe como é. Ele tem jeito à moda antiga. Filha é para a casa, depois
casar, ter filhos e cuidar da casa.
- Um dia isso vai mudr. Por enquanto o quê fazer? E
ela não se rebelou?
- Encontrou na pintura uma maneira de compensar a
frustração. Viu os quadros na sala, na copa?
- Ví sim. São dela?
- Todinhos. Já pintava nos tempos de estudante e
agora, todo dia ela pinta um pouco. Vai haver uma hora que não terá mais lugar
para por tanto quadro.
- Nunca tentou expor alguns?
- Ela acha que não vale a pena. Diz que não são bons o
suficiente para por no mercado de arte.
- Quem tem que julgar isso são as pessoas que vão
apreciar. Geralmente quem faz, encontra defeitos em toda parte.
- Não vou lhe levar lá pois ela não gosta que
perturbem quando está pintando. Quando sair de lá, pode conversar com ela e
pedir para mostrar o que tem pronto.
- Nem pensar em perturbar a concentração dela. Não
podemos olhar melhor os que estão da sala de estar e da de refeições? Olhei de relance
antes, mas agora fiquei interessado em ver com detalhes.
- Acho que não há problema. Tem no corredor dos
quartos também. Sem contar uma pilha guardada no depósito.
- Então ela produz bastante. Pelo visto é a timidez
que a impede de expor seu trabalho. Dá licença que vou olhar detalhadamente
esses aqui da sala.
Levantaram-se e foram até perto da lareira, onde havia
uma paisagem grande, retratando a vista que estivera apreciando pouco antes,
apenas num momento diverso. Os grãos de café estavam quase no ponto de colher. Um
colorido de doer nos olhos de tão viva a cor. Um pequeno e delicado Isabel, colocado no canto inferior
direito, identificava a autoria da pintura. José observou longamente o quadro e
ficou encantado. Olhou de perto, de longe e admirou a perfeição do traço, a
nitidez das cores que retratavam o vasto cafezal com os frutos maduros.
Na parede oposta outro retratava uma pessoa, de
perfil, provavelmente o pai, num ponto diverso, tendo como fundo outro setor
dos cafezais, porém totalmente floridos. Formavam uma vista perfeita. Ali estavam
as plantas iniciando o ciclo de produção, do outro lado, no ponto de colheita. Os
frutos resultantes da floração mostrada aqui. As outras paredes apresentavam
pinturas menores, onde os vastos terreiros de secagem do café estavam cobertos
de grãos em diferentes fases de secagem. Os trabalhadores na faina de revirar
constantemente, tendo em vista a secagem uniforme e impedir a deterioração dos
grãos ainda molhados. Eram pinturas dignas de nota.
Na sala de refeições, os motivos eram outros. Um apresentava
uma sala com lareira, confortáveis poltronas onde algumas pessoas estavam
sentadas palestrando e saboreando uma xícara de café. Até mesmo o vapor
desprendido pelo calor do líquido estava representado. Em outra pintura estava
a entrada da propriedade. A mesma placa de madeira que o acolhera naquela manhão
ao chegar, estava ali pintada com perfeição, tendo como pano de fundo a alameda
de cafeeiros, dessa vez com poucas folhas, mostrando que o quadro havia sido
feito na época entre a colhaita e nova floração. Estavam admirando os belos
trabalhos, quando a própria autora deles apareceu no ambiente. Ficou por
instantes em silêncio, vendo o olhar fixo de José sobre um dos quadros e então
falou:
- Não há muito que apreciar nesses quadros, doutor. Não
passo de uma principiante.
- Pode até ser principiante, não duvido. O que não
deixa dúvida é a força de sua arte. Consegue traduzir a alma do que está
retratando de modo muito sutil e vibrante.
- Bondade sua. Mamãe sempre quer que eu leve alguns
dos meus quadros para um especialista ver e avaliar. Não creio que valha a
pena. São fracos demais. Tenho muito que evoluir em minha técnica de pintura.
- Em seu lugar daria ouvidos à sua mãe e levaria uma
amostra para avaliação. Depois de ouvir a opinião de alguém especializado poderá
ter uma ideia do real valor do seu trabalho.
- Acha mesmo que vale a pena?
- Só tentando para saber. Em geral somos levados por
nossa humildade, timidez a subestimar nossos trabalhos. Alguém que tenha uma
visão neutra poderá dar uma opinião mais abalizada, apoiada na experiência e
conhecimento que tem.
- Em Sete Lagoas tem algum entendido no assunto? Nunca
ouvi falar pelo menos.
- Se me autorizar posso fazer uma pesquisa e saber se
existe essa pessoa especializada. Faço uma visita e vejo se ela realmene tem
conhecimento ou não passa de alguém curioso, aventureiro em busca de ganhos fáceis
às custas de gente desavisada.
- Está vendo filha! Não sou apenas eu que acho seus
quadros lindos. Dr. José também e el epode verificar se há quem possa fazer a
avaliação.
- Se não houver, podemos verificar alguém na capital.
O coronel pode custear as despesas para levar o material até lá e fazer a
avaliação.
- Não sei se papai vai querrer gastar dinheiro com
isso. Ele gosta de ver os quadros aí, mas nunca falou em vender algum deles.
- Do que oceis tão falando? – perguntou coronel
Onofre, que acabara de levantar de seu cochilo.
- Os quadros pintados por sua filha, coronel. São
muito bons. Eu tinha visto antes e não sabia quem era o pintor.
- O doutor está se prontificando a intermediar com
algum entendido em pinturas uma avaliação dos meus trabalhos. Pode ser preciso
levar alguns para a capital.
- Uai, sô! Minha fia aparecer nas revistas e jornais,
numa exposição de pintura! Sei não.
- Pode acreditar, coronel. Apesar de não ser entendido
no assunto, mas posso garantir que não são de jogar fora. Creio que vale a pena
verificar o valor que de fato tem.
- Seis cumbina aí. O dinheiro para a viagem eu arrumo.
Só tenho uma fia e vou guardar para quem? Se é para o bem dela, num tem
problema ninhum.
- Vou me informar
direito e depois aviso do que for averiguado.
- Eu vou para coizinha
fazer um café e server uns biscoitos a mode lanche da tarde, - disse Maria
Luiza.
- Só se for para
arrematar o almoço que ainda está quase inteiro aqui.
- Vou com a senhora mãe.
- Nóis vamo pra perto
da lareira, que o frio está pegando. Parece que vai chuvê à noite.
Em instantes estavam as
mulheres na cozinha ocupadas com os apetrechos para coar o café e separar os
biscoitos, além de outros doces como pé de moleque e paçoca.
Indo para a sala de
estar, sentaram-se confortavelmente diante da lareira que emitia um suave calor
no ambiente. Coronel Onofre avivou o fogo e colocou mais um pedaço de lenha. Não
seria necessário muito fogo. Apenas o suficiente para deixare o ambiente agradável.
Ficaram alguns minutos em silêncio, antes de José Silvério criar ânimo para
trazer à baila o principal motive que o trouxera ali. Não sabia exatamente como
iniciar a conversa e optou por tentar cativar o candidato a sogro, com o que
julgava ser algo interessante.
Puxou do bolso um maço de cigarros, retirou-lhe o
lacre e fez emergir algumas unidades pela abertura que fizera. Ofereceu um ao
coronel, que o aceitou, depois retirou um para si. A seguir pegou uma caixa de
fósforos, retirou um palito, riscou e acendeu o cigarro do coronel. Tomou outro
palito, fez o mesmo com o seu cigarro. Após algumas tragadas, uma pequena nuvem
de fumaça enchia o ambiente e ele atacou.
- Eu vim aqui, coronel,
com mais um objetivo, além de tirar as fotografias da cerca.
- Uai, sô! Qui é mais qui o senhor veio faze, doutor?
- Eu fiquei deveras impressionado com a beleza e
delicadeza de sua filha, coronel. Confesso que meu coração dispara cada vez que
a vejo e por isso vim lhe pedir a mão dela em namoro. Se ela me aceitar e nos
entendermos, em algum tempo poderemos marcar o casamento.
O coronel pensou por
alguns instantes, olhou bem nos olhos do moço e disse:
- O senhor acha que eu sou louco?
- Não senhor, muito
pelo contrário, lhe tenho muita consideração.
- Então vou entregar uma jóia como a minha fia na mão
de quem irá fazê-la passar fome! Eu não faria isso nem em sonho.
- De maneira nenhuma. Sou
advogado, estou bem encaminhado na profissão e desejo dar a sua filha a melhor
das vidas que estiver ao meu alcance.
- Vivendo como um
perdulário? O senhor não vê que o cigarro é artigo muito caro para ir distribuindo
por aí a qualquer um? Dispois, gastar dois paus de fósforos para acender dois
cigarros, com tanto fogo ai mesmo na lareira? Não e não. Com minha fia o senhor
não se casa. É mior que fique sorteira.
- Vamos deixar esse
assunto para um outro dia. Vou cuidar de alcançar sucesso na profissão e lhe
mostrar que sou capaz de dar a senhorita Isabel uma vida digna. Voltaremos a
falar no assunto em outra oportunidade.
- Qui é que le parece o
causo da ação contra o muquirana do meu vizinho?
- Creio que, com as
fotos que tirei, poderei instruir muito bem a petição que farei ao juiz. Quando
for marcada a audiência, eu lhe avisarei.
- Desculpe o mau jeito. Sou muito observador dos
detalhes. E a sua atitude hoje, demonstrou que não tem o devido cuidado com o dinheiro
que ganha. Isto pode se tornar um problema com o tempo. Acaba-se gastando mais
do que ganha e quando se dá conta, está enterrado em dívidas.
- Tenha certeza que vou
tratar de aprender a lição e espero que o senhor não me poupe de suas
observações. Vou me tornar digno de sua confiança e então me confiará a mão de
sua filha. Mas isso fica para outra ocasião.
Nesse momento Isabel
entrou trazendo o bule fumegante de café e a mãe Maria Luiza a seguia com uma
bandeja onde havia biscoitos, páezinhos de queijo, paçoca e pés de moleque. Tudo
foi posto sobre a mesa de centro e Isabel se pôs a server as xícaras luxuosas
com o conteúdo do bule. Entregou a cada um a sua e ofereceu o açucareiro para
que se servissem. Depois colocou a bandeja com os doces mais perto e pediu que
se servissem do que lhes fosse do agrado. Serviu para si mesma uma xícara de
café, sentou e se pos a sorver em pequenos goles. Tomava o café sem açúcar. De acordo
com suas palavras não queria engordar.
A conversa correu leve,
falando de amenidades, notícias vindas recentemente da capital federal sobre o
andamento do governo do General Ernesto Geisel. Pessoalmente coronel Onofre
preferia que houvessem colocado no posto mais importante da nação um
representante mineiro, mas nesses tempos era melhor manter o bico fechado, para
não entrar mosca. Quem se aventurasse a falar demais, poderia enfrentar situações
bastante desagradáveis. Isso era algo que não apetecia ao nosso coronel. Prezava
sobremaneira sua liberdade, a propriedade e seus bens em geral. Pensava duas,
três e mesmo mais vezes antes de dizer o que quer que fosse relacionado ao
governo e mesmo qualquer autoridade.
Após o café, alguns
biscoitos, uma segunda xícara e um pé de moleque, José julgou ser hora de bater
em retirada. Para uma primeira visita era bastante. Não convinha demorar demais
para não dar impressão de ser aproveitador. Deixou combinado com Isabel fazer
tudo para saber da existêncie de alguém capaz de fazer a avaliação de seus
quadros. Se não pudesse ser em Sete Lagoas, seria na capital Belo Horizonte.
- Bem coronel, dona
Maria Luiza, senhorita Isabel. Já são quatro horas, o tempo passou depressa. Foi
um prazer visitar sua propriedade. O almoço foi maravilhoso, seu café Isabel, e
seus doces dona Maria, muito bons. Coronel, parabens pela propriedade e pela
família. Tudo perfeito. Gostaria de ficar mais um pouco, mas quero chegar cedo
em casa e me preparer para a semana de trabalho.
- A pressa é sua,
doutor. Nóis ficamo muito honrado em le receber em nossa casa. A porta está
sempre aberta para os amigos.
- Doutor, obrigada
pelos elogios aos meus dotes culinários. Dê um abraço em sua mãe, seu pai e irmãos.
- Obrigada pelo elogio
aos meus trabalhos. Se conseguir um avaliador não sei como poderei lhe
agradecer.
- Imagine! É um prazer server
a quem me recebeu tão gentilmente, me serviu café e comida tão bem preparados.
Espero ser merecedor de estar aqui em outras oportunidades.
Levantaram-se e sairam
para a varanda. José estendeu a mão a todos, despedindo-se e depois foi até o
automóvel. Em pouco estava a caminho de casa. Ia pensativo sobre as palavras do
coronel. Não imaginara que o velho fosse ser tão “sovina” a ponto de considerer
sua attitude como perdulária. Não era à toa que no resto do país os mineiros
eram conhecidos como mão fechada. Os famosos mãos de vaca. Percorreu a distância
sem pressa e antes do por do sol estacionava na garagem da casa de seus pais. Ouviu
ruido de conversação ao se aproximar da porta da moradia. Uma tia, irmã da mãe
e seu marido haviam vindo passear. Moravam num vilarejo a alguns quilômetros de
distância. Certamente estariam se despedindo em pouco tempo. Habitualmente não
gostavam de andar na estrada em horas da noite.
Ao entrar foi recebido
alegremente. A tia e o tio não o viam há bastante tempo e estavam orgulhosos do
progresso que ele vinha obtendo na carreira de advogado. Congratularam-se com
ele e lhe desejaram sucesso. Quiseram saber como havia transcorrido a visita
que acabava de fazer ao cliente, aparentemente importante. Lhes informou
brevemente o que acontecera, omitindo os detalhes que só a ele interessavam
evidentemente.
Em pouco os tios se
despediram para retornar ao lar. Tinham alguns animais domésticos que
precisavam ser cuidados antes de escurecer e o sol estava se pondo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário