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| Área de manobras e cargas. |
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| Vista do Salgado Filho. |
Conhecendo a capital
Num belo dia de sol, Gaudêncio das Neves, depois de
sofrer um pouco durante os momentos mais críticos de um voo num avião
comercial, desembarcou no aeroporto Salgado Filho, na capital Porto Alegre. Era
seu primeiro voo mais longo. Havia feito algumas experiências em voos
panorâmicos sobre as fazendas da região, em companhia do padrinho Joaquim. O
aparelho em que agora voara, era equivalente a uma porção daqueles em que
tivera oportunidade de fazer sua estréia nos ares do Rio Grande.
Estava pilchado com seu traje típico e olhou assustado
para a quantidade nunca imaginada de aviões, as dimensões do aeródromo, o pátio de manobras e estacionamento. Tudo era gigantesco. Estava acostumado
às amplidões do pampa, onde as coxilhas se estendem a perder de vista,
alternando pastagens, capões de mato, plantações e aqui ou ali uma sede de
fazenda. O aeroporto de São Borja, mesmo não sendo pequeno, parecia um campinho
de várzea perto de um Beira Rio, Olímpico ou Maracanã. Orientado pelos
funcionários da companhia aérea, dirigiu-se para a área de desembarque, onde
recebeu sua bagagem. Após perguntar pela saída, encontrou finalmente um taxi
que o levou para o hotel previamente reservado pelo padrinho.
Entrou no hotel, olhando curiosamente para todos os
lados. Suas estadias anteriores em hotéis haviam ocorrido em lugares menos
imponentes. Era ali que Joaquim se hospedava nas raras ocasiões em que vinha
para a capital. Era suficientemente bom para satisfazer as exigências de um
homem rico, não excessiamente sofisticado. O registro foi preenchido, um
adiantamento de duas diárias foi exigido e depois encaminharam o hóspede para o
seu aposento. Localizava-se no 7º andar, com vista para a Av. Farrapos. Era
estranho observar os carros e as pessoas dali de cima. Os primeiros se
assemelhavam a chapas mais ou menos planas que deslizavam pelas ruas. Já as
pessoas pareciam bonecos, tendo em destaque a cabeça e os braços, deslocando-se
pelas calçadas. Aqui e ali se viam toldos de vendedores de rua. Carrinhos de
cachorro quente, sanduiches e outras iguarias.
Guardou suas roupas no guarda-roupa, os objetos de uso
na cômoda, onde havia um amplo espelho. Foi até o banheiro e aliviou a
premência de suas necessidades fisiológicas. Olhou no relógio e viu que era
hora de ir almoçar, do contrário perderia a hora e depois teria que esperar a
janta, ou então comer alguma coisa num boteco. Conferiu se tinha no bolso os
documentos, dinheiro e objetos de uso constante, depois desceu e pediu
informação na portaria. Indicaram lhe um restaurante situado a duas quadras
dali, onde poderia encontrar uma refeição de seu gosto. Sua forma de trajar
denunciava a orígem e indicava o tipo de lugar escolheria para almoçare.
Chegou lá e encontrou uma churrascaria bastante
movimentada. Apesar de já serem 13h 15 min, ainda estava cheio, tendo poucas
mesas livres. Escolheu uma que dava visão de todo o ambiente e uma parte da
rua. Queria saborear a refeição enquanto prestava atenção no movimento geral,
nas atitudes dos demais clientes, o movimento da rua. Estava em viagem de
aprendizado, portanto tudo que fosse novidade lhe interessava nesse sentido. Um
garção lhe trouxe o cardápio e ele não demorou na escolha. O prato principal
seria a costela no espeto, tendo por acompanhamento um pouco de salada, arroz,
feijão e algum petisco como uma linguicinha, um miudo de frango.
Enquanto esperou correu o olhar por sobre todo povo
sentado, ocupado em dar conta de seus pedidos, mantendo com os companheiros de
mesa frações de conversa em momentos de interrupção da mastigação. Em seu
íntimo ficou pensando no fato de que, na hora de comer, não existe grande
diferença entre ricos, pobres, humildes, letrados ou qualquer outra
diferenciação. O importante era colocar a comida para dentro, mastigando e
engolindo num vai-vem ininterrupto. Seu pedido chegou e interrompeu seus
devaneios, pondo-se também a fazer o mesmo que os demais faziam. A carne estava
muito boa e esqueceu completamente seus pensamentos de há pouco. A preocupação
principal era dar cabo daquele naco de costela, duas linguiças e um pouco de
feijão com arroz que pusera no prato. O espeto com carne passou mais uma vez e
deixou uma segunda porção, ao cabo da qual ele sentiu que estava farto. Comer
mais seria exagero e poderia passar mal.
Pagou a conta, mas antes pediu o cafezinho. Enquanto
aguardava o seu “pretinho fresco passado no saco”, pegou um palito e
discretamente removeu de entre os dentes alguns nacos de carne que ali haviam
ficado presos. Depois saiu caminhando lentamente pela rua, observando todos os
pormenores. Estava na capital e ali, como em qualquer outra cidade, havia
detalhes característicos próprios, dificilmente encontráveis em outra. Queria
reter o máximo de informações na mente. Era segunda feira e o encontro com os
agentes financeiros do padrinho estava marcado para a manhá de terça. Tinha
pois a tarde livre para passear, conhecer o que desse tempo de ver. Voltou ao
hotel, trocou de roupa, colocando uma que chamasse menos atenção.
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| Beira Rio, vista interna. |
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| Vista aérea do Beira Rio. |
Desceu e perguntou se era muito longe dali o estádio
do Beira Rio, bem como do Olímpico. Era torcedor do Colorado, mas não do tipo
fanático. Respeitava a liberdade de cada qual ter sua preferência. Afinal, o
que seria dos outros clubes, se todos resolvessem torcer para o mesmo? Não
teriam de quem fazer troça nos casos de vitória ou derrota. Nem mesmo adversário
teriam mais, uma vez que isso implicaria na extinção dos outros. Tinha por
lema: “Na hora do jogo, torcer até ficar rouco e quase sem fôlego. Depois,
confraternizar pouco importando que havia sido vencedor.” Foi informado que
poderia tomar um ônibus na esquina e desembarcar ao lado do Beira Rio. Depois num
outro coletivo chegaria ao Olímpico. Estava munido da filmadora Super 8 do
padrinho, adquirida na recente viagem à Europa. Registraria as imagens de sua
visita aos dois monumentos dos maiores clubes de futebol do Rio Grande do Sul.
Decidiu por tomar um taxi, pois assim chegaria mais
depressa e poderia dedicar mais tempo a visita que iria fazer. Saiu para a rua
e logo um veículo era parado ao seu sinal. Embarcou e deu o endereço onde
queria ir. Partiram e em cerca de vinte minutos era deixado diante do estádio
conhecido como o Gigante do Beira Rio. Havia visto fotografias de página
interia nos jornais, imagens na TV a cores na casa do padrinho, mas nada
poderia dar a noção exata da majestosidade do imenso bloco de concreto e aço
que via a sua frente. Caminhou lentamente ao redor, olhando cada detalhe,
sempre de camera em punho, ou batendo instantâneos para o álbum que faria da
viagem. Demorou cerca de uma hora até se dar por satisfeito. Quando pudesse
viria assistir a um jogo, de preferência um Grenal. Seria a realização de um
sonho acalentado há muito tempo.
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| Vista aérea do Olímpico Monumental. |
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| Olìmpico Monumental, vista interna. |
Tomou outro taxi, rumando para o Estádio Olímpico. Lá chegando, seus olhos também se admiraram da imponência da obra. Forçoso era reconhecer que o estádio do principal adversário de seu Colorado, também tinha sua grandiosidade. Nova sequência de filmagens, fotografias e novas sequências de filme. Teria muito que mostrare ao pai, aos amigos, aos peões com quem convivera durante os anos de sua infância e adolescência. Entre eles havia os colorados como também os gremistas. Chegavam a formar dois times para disputar peladas nas tardes de domingo ou feriado, numa área que for a limpa e era própria para jogar uma bola.
As vitórias se alternavam ora para um lado, ora para
outro, mas sempre no final matavam a sede com uma ou duas grades de gasosa,
quando não umas Serramaltes, Brahmas, Casco Escuro ou coca-cola. Sempre resultavam
alguns esfolões, vez ou outra um tornozelo inchado, até mesmo um braço quebrado
durante uma queda ou choque no calor da disputa. Poderia mostrar a todos que não
se importara em visitar apenas o estádio de um dos dois clubes. Levaria imagens
dos dois e assim ficaria em bons ares com uns e outros. Terminada sua incursão
aos estádios, verificou no relógio de pulso, presente do padrinho trazido da
Europa, que já eram 5h30min. Não teria mais tempo para dar um passeio até o rio
Guaiba. Deixaria para outra hora, pois havia visto do algo, na hora em que o
avião estava fazendo a aproximação para pousar no aeroporto. Fora uma vista
impressionante.
Retornou ao hotel e decidiu tomar banho, barbear-se
com capricho. Queria fazer bela figura e não podia descuidar da aparência. Ao desembarcar
do taxi viu ao lado do hotel a existência de uma barbearia e foi até lá para
aparar o cabelo, dar um jeitinho no bigode, do qual se orgulhava bastante. Teve
que agurdar alguns minutos até ser atendido. O professional que o atendeu foi
gentil e realizou seu desejo de fazer um corte de cabelo que melhor se
ajustasse ao tipo do cliente. Deu pequenos retoques no bigode e colocou nas mãos
de Gaudêncio um espelho para observar de perto. Olhou demoradamente para sua
imagem, conferiu o cabelo e se deu por satisfeito. Pagou o serviço, deixando
uma gorjeta e voi para o hotel. Estava barbeado e de cabelo cortado, faltava
apenas o banho.
De banho tomado, uma roupa nova tirada do
guarda-roupa, agora desamassada depois de ficar pendurada no cabide durante a
tarde. Vestiu-se com calma, calçou o sapato e desceu para jantar no próprio
hotel. Uma refeição leve para a noite era suficiente. Ainda sentia o peso da
carne ingerida no almoço. Enquanto esperou a refeição, pensou no que faria na
primeira noite na capital. Pensou em procurar uma boate para tomar contato com
a vida noturna, mas sua inexperiência o colocaria em risco de passar por experiências
desagradáveis. Na manhã seguinte tinha compromissos importantes e não seria
conveniente se apresentar de ressaca ou quem sabe coisa pior. Quando o garção
trouxe a comida, perguntou de modo discreto sobre um cinema nas redondezas. Queria
ver um bom filme para depois ir dormir uma boa noite de sono.
O interpelado lhe disse que o melhor cinema das
proximidades ficava na rua paralela, descendo uma quadra. Pelo que sabia
estavam levando uma fita muito boa. Um bang-bang inédito, e ouvira falar muito
bem. No que lhe dizia respeito, aconselharia o amigo a assistir.
Agradeceu e se pos a comer com calma. Tinha tempo
suficiente. Eram agora pouco mais de sete horas e o filme teria início somenta
as 8 h 30min. Poderia gastar todo o tempo necessário para a sua refeição e
depois ir até o cinema. Terminou de comer e pediu um café. Tomou a bebida e
levantou-se para sair. Em pouco mais de dez minutos ele se encontrava diante do
moderno cinema, onde em grandes cartazes era anunciada a fita que estaria sendo
exibida em sessões contínuas naquele e nos próximos dias. Havia uma fila onde
as pessoas ficavam para adquirir seus ingressos. Gaudêncio não esperou e entrou
na fila. Pouco depois recebia o bilhete e foi para a porta de entrada. Ao chegar
no interior, mantido em semiobscuridcade, procurou um lugar para sentar. Escolheu
a posição que permitiria boa visão da tela e sentou-se no assent confortável.
Alguns minutos depois o filme começou. Gaudêncio
procurou manter o controle, pois era a primeira vez que estava em uma sala de
cinema de semelhantes dimensões. Prestou atenção aos demais assistentes para não
cometer gafes, dizer algo inadequado, rir nas horas indevidas. Se divertiu
bastante e após duas horas, que passaram sem perceber, levantou satisfeito e
voltou para seu quarto no hotel. Ali chegando aproveitou para ver a última edição
do jornal que estava passando na TV na sala de estar no hall. Depois subiu e
foi dormir.
Terça feira cedo estava a caminho do endereço da
empresa de investimentos, localizada a alguma distância, para ter o seu primeiro
contato com o mundo dos investimentos. Ia imaginando o que iria encontrar. Chegou
e foi introduzido na sala do agente de Joaquim sem demora. Ouviu por mais de
meia hora o homem discorrer sobre diversos investimentos do padrinho. Falou de
ações, Petrobrás, Banco do Brasil, depósitos a prazo fixo, investimento em
fundos de ações, e uma enorme variedade de nomes que eram desconhecidos até
aquele momento. Recebeu um relatório da rentabilidade dos últimos seis meses de
todos os investimentos, percebendo que dinheiro gera dinheiro, bastando ser
aplicado de maneira conveniente. Claro que havia riscos. Para evitar isso
existiam pessoas especializadas em fazer o acompanhamento diário e orientar os
investidores na sua tomada de decisões. Ao final da manhã, em torno das 11
horas, a entrevista foi dada por encerrada. Gaudêncio não fez alterações
significativas pois temia tomar, por inexperiência, decisões erradas e causar
prejuízos. O padrinho o deixare tranquilo nesse particular, mas fazia questão
de não ter essa responsabilidade.
Quando estivesse mais inteirado de tudo, poderia
começar a tomar algumas decisões mais audazes. Pensou na sugestão de Joaquim
sobre voltar a escola. Estava com 23 anos e iria fazer figura estranha no meio
da juventude, mas isso pouco importava. Sabia que não seria o único nessa
situação. Era bastante comum as pessoas descobrirem a encessidade de estudar e
retornarem aos bancos escolares. Queria poder julgar melhor por seu próprio
entendimento. Mesmo os profissionais mais conceituados estavam sujeitos ao erro
e também a ações menos honestas. Sem fazer julgamentos, mas sendo cauteloso,
preferia errar por sua própria cabeça do que pela dos outros.
Ao sair, cabeça meio tonta de tanto ouvir números e
nomes, cifras e percentuais, caminhou algumas quadras e no meio do caminho
encontrou um amplo terreno sem construções. Bem no meio estava armada a lona de
um circo, pelo que se podia visualizar, em boa situação. Devia ser uma
apresentação digna de ver. Fora assistir diversas sessões de circo em São Borja
em ccomapnhia da madrinha e padrinho. A diferença era que aqui o tamanho da
lona do circo dava o equivalente a pelo menos umas duas ou mesmo três das que
apareciam na cidade natal. A portaria ficava próxima à rua e por toda parte
cartazes anunciavam os horários das sessões e os preços. Decidiu almoçar e
depois assistir a sessão da tarde. Provavelmente estaria cheio de crianças e adolescents,
mas isso não importava. Tinha quase certeza que nesse horário seria mesmo mais
divertido.
Encontrou um restaurante a la carte nas proximidades e
almoçou. O cardápio constava de uma feijoada e isso lhe atiçou o apetite. Gostava
do prato, frequentemente preparado por Maria Conceição, sua mãe nos anos antecedents.
O odor vinha da cozinha próxima até as narinas de quem passava na porta. Sentou-se
e fez o pedido. Em pouco chegou uma generosa terrina cheia de feijão com os
tipos de carne próprioss do prato. Em pequena travessa veio arroz, farinha de
mandioca e salada. Era comida suficiente para satisfazer alguém com fome de leão.
Certamente haveria sobras a recolher após deixá-lo satisfeito.
Ao sair do restaurante, caminhou até uma praça que
ficava perto, sentou um pouco na sombra esperando a hora de ir tomar seu lugar
no circo. Alguns minutos antes foi até a bilheteria, adquiriu o ingresso e foi
ao local de acesso. Entregou o bilhete e entrou, encontando um lugar em uma
cadeira, lugar mais confortável que havia adquirido. Um toca discos estava
rodando um LP de Teixeirinha. No picadeiro dois palhaços faziam evoluções,
contavam piadas e aprontavam estrepolias diversas, mantendo os assistentes já
sentados entretidos com suas ações.
A sessão foi deveras divertida. Nos momentos das
apresentações de trapézio os peitos se comprimiam com o receio de uma queda. A equipe
era muito boa. Faziam numerous de alta complexidade. Exigiam alto grau de
agilidade e força física. Os equilibristas também eram formidáveis. Os números
com elefantes, com tigres e leões eram igualmente de forte emoção. O tempo
passou sem perceber e ao sair do interior, Gaudêncio constatou que eram quase
cinco horas. Iria para o hotel e depois sairia para jantar. Talvez aproveitasse
para ir a um teatro. Ouvira dizer que uma companhia estrangeira estava se
apresentando no teatro municipal. Pediria informações a respeito no hotel. Chegou
e logo obteve a informação que desejava.
Depois de jantar pegou um taxi e foi até o teatro. A fila
par aquisição de ingressos era um pouco grande e pensou em desistir. Enquanto esperou
um pouco, decidindo o que fazer notou que a fila estava andando bem depressa e resolveu
enfrentar. Alguns minutoss depois chegava ao guichê e adquriu o ingresso. O preço
era alto, mas o padrinho lhe dissera que deveria tomar um “banho de cultura”
para aos poucos se ajustar a sua nova posição. Entrou e aos air tinha plena
convicção de que valera a pena. A peça representada era de autoria de
Scheakespeare e a companhia espanhola. Ficara emocionado nas cenas mas fortes.
Na volta ao hotel viu na televisão a informação de que
no dia seguinte, quarta feira á noite haveria jogo no Beira Rio. O seu Colorado
iria enfrentar o Flamengo do Rio de Janeiro. Os amigos e conhecidos o chamariam
de bobo se contasse não ter ido assistir ao jogo, estando na capital. Procurou se
informar sobre a disponibilidade de ingressos e lhe foi informado que era possível
adquiri-los ali perto em uma agência conveniada. Teria apenas que esperar a
manhã seguinte quando o local abrisse o expediente. Subiu para dormir e
descansou das andanças do dia. Não fizera nenhum esforço, mas rira a valer no
circo e pouco antes no teatro for a levado aos extremos da emoção. Isso deixava
uma leve lassidão aos membros, prevendo por isso uma boa noite de sono.
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| Guaiba, ao fundo Porto Alegre. |








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