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| Aeroporto do Recife - Guararapes. |
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| Aeroporto de Guararapes - Recife. |
Conhecendo
a Europa
Enquanto os noivos voavam para o nordeste
e depois para Europa, os familiares cuidaram de dar destino aos detritos
deixados pela festa. Também foram eliminados os sinais do evento. A propriedade
retornaria ao seu ritmo de sempre. A família de Ângela, pai e mãe, tomaram a
estrada na tarde do dia seguinte. Em Porto Alegre embarcariam alguns dos seus
pertences a serem levados para a capital federal. Um apartamento funcional
estava à sua espera, com mobília e tudo. Levariam apenas o essencial, uma vez
que boa parte do tempo Lourdes estaria em Porto Alegre com a filha.
O voo de Recife para o norte da África,
onde fariam uma escala para reabastecimento e eventuais manutenções foi um
pouco turbulento. Enfrentaram tempestades durante boa parte do percurso,
levando os passageiros, alguns pouco afeitos aos voos de grande altitude e
longo curso, a ficarem seriamente preocupados com sua segurança. Até Gaudêncio,
habitualmente sereno e seguro, ficou sensivelmente abalado. Foi com alívio que
ouviram o anúncio do pouso que aconteceria em poucos minutos. Graças a Deus o
céu estava limpo, com boa visibilidade. Aterrissaram sem problemas. O
desembarque ocorreu apenas para um breve descanso, esticar as pernas, fazer uma
refeição em terra firme. Em uma hora estariam retomando o voo rumo a Paris.
Nossos viajantes fizeram um lanche apenas
e foram conhecer as dependências do aeroporto que podiam acessar sem
ultrapassar os limites da área de passageiros em trânsito. Quando menos
esperavam era hora de voltarem a aeronave. Um dia voltariam para conhecer o
Marrocos. De dentro do aeroporto haviam visto de relance o casario da cidade,
com suas mesquitas, cercada de áreas semidesérticas, as plantas típicas,
totalmente desconhecidas aqui no Brasil.
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| Aeroporto de Marrakech - Marrocos. |
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| Frente do aeroporto de Marrakech - Marrocos. |
A etapa restante da viagem foi mais curta.
Desceram no aeroporto D’Orly e dessa vez era para saírem do aeródromo, levando
suas malas para o hotel que os esperava. Era noite e a mudança de fuso horário
havia mexido com seu metabolismo. Aliado às longas horas de voo
intercontinental, deixara ambos alterados. O sono estava desregulado, o apetite
fora do normal. Iriam demorar alguns dias para se adaptarem. De posse de seus
pertences, entregaram as bagagens a um carregador. Ângela pediu que os levasse
a um taxi e logo seguiam rumo ao hotel. Chegaram e Gaudêncio ficou totalmente
perdido. Não entendia uma palavra do que os recepcionistas nem os carregadores
falavam. Estava completamente dependente de Ângela para se comunicar.
Nos primeiros momentos viu-se a falar
português com um francês que lhe fez gestos de desentendido. Quando ia falar
poucas e boas ao atrevido, a jovem esposa o socorreu, falando em inglês com o
interlocutor. Explicou que ele não falava sua língua, apenas conhecia o português
e que não levasse a mal. Depois de se registrarem no hotel, o mesmo boy que
estivera a ponto de se desentender com Gaudêncio, os acompanhou até o
apartamento. Colocou as malas ao pé da cama, recebeu uma gorjeta e saiu com um:
- Au revoir madam!
- Au revoir
messieur!
- Eta
língua desgraçada que esse povo fala!
- Sorte
sua que eles não entendem o que você diz. Do contrário iria ouvir uma bela
lição de civismo e moral. Os franceses são muito orgulhosos de sua língua
pátria. Não admitem que alguém a fale de modo errado. Falar mal dela então, nem
se deve pensar.
- Acho que
se alguém falar errado o português ou falar mal da nossa língua eu também ia
desancar o sujeito.
- Ninguém
gosta que desfaçam das coisas de sua terra.
- Vamos
respeitar a casa deles, né meu amor.
- Me ajuda
a pôr nossas roupas no guarda roupa. Devem estar mais amassadas que alguém que
dormiu no baú.
- Imagine, dormir no baú! Deve ser um
bocado desconfortável. Não fica só a roupa amassada. O sujeito todo fica igual.
Guardaram as roupas bem arrumadas e os
agasalhos que haviam trazido estavam se mostrando insuficientes. No dia
seguinte iriam procurar uma loja e adquirir algo mais aconchegante, pois o frio
da noite invernal lhes dera boas-vindas. No frigobar havia alguns pacotes de
salgadinhos e doces que serviram para mitigar a fome pouco intensa. Depois de
uma sessão de amor, primeira digna do nome desde que haviam se unido em
matrimônio, dormiram embalados pelo rumor das ruas parisienses. Pela janela do apartamento
podia ver ao longe as luzes da Torre Eiffel. Do outro lado era visível em
alguns pontos o rio Sena, cujas águas lançavam reflexos prateados das luzes de
iluminação pública dos arredores.
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| Mapa do aeroporto Orly - Paris, parte Oeste. |
Dormiram até depois de oito horas. O café
da manhã foi algo de deixar boquiaberto. Pão francês baguete, geleias,
manteiga, queijos, patê, defumados e mais uma variedade de coisas que os dois
desconheciam. Comeram do que sabiam não atacar seus aparelhos digestivos
desacostumados de certos ingredientes. Nada mais desagradável que estar em lugar
estranho e ser acometido de um desarranjo digestivo. Na portaria conseguiram um
folheto turístico indicando os pontos de maior interesse. Também receberam
orientação sobre locais em que pudessem adquirir agasalhos para se protegerem
do forte inverno. Lá fora uma camada de uns 15 cm de neve cobria o chão. As
ruas haviam sido limpas e o transporte funcionava normalmente.
Um taxi os levou até o endereço fornecido
pelo recepcionista. Uma grande variedade de roupas de inverno, tanto masculinas
como femininas estava em exposição. Começaram por escolher sobretudos para
ambos, toucas de lá, gorros, botas forradas para os pés além de um bom
sortimento de peças de vestuário em geral. Quando terminaram estava passando da
hora do almoço e decidiram retornar ao hotel para deixar lá o que haviam
comprado. Era impossível perambular por diversos lugares arrastando um volume
considerável de roupas em sacolas e pacotes. Trajavam o necessário para se
proteger do frio intenso do existente na rua, levando o resto. No térreo do
hotel havia também um restaurante e foi ali mesmo que almoçaram. Depois iriam
passear um pouco.
Não muito longe ficava um teatro, onde
estava sendo encenada uma peça bem conceituada e Ângela convenceu o marido a
leva-la para ver. Ele concordou de bom grado. Tinha feito o propósito de
transformar a viagem de núpcias em um acontecimento inesquecível. O padrinho o
aconselhara a não medir gastos, pois a viagem de lua de mel a esposa jamais
esquece. Seja ela ótima ou péssima. O que diferia nos dois casos eram as
consequências para a vida do casal nos anos posteriores. No passeio da tarde
pela área circundante, chegando às margens do Sena, compraram filmes para a
câmera fotográfica e para a filmadora. Registraram tomadas de todos os pontos
interessantes por onde passaram.
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| Mapa do aeroporto de Orly - Paris. |
Navios subiam e desciam pelo rio, passando
sob as pontes que uniam as partes da cidade de ambas as margens. Foram a pé até
a outra margem, depois voltaram e verificaram se ainda existiam bilhetes para
aquela noite no teatro. Era um dia de semana, quando o afluxo de espectadores é
menor e assim conseguiram os bilhetes. Em um bistrô das redondezas fizeram uma
refeição leve enquanto aguardavam a hora de entrar no teatro. A representação
foi ótima, apenas Gaudêncio não gostou por não entender absolutamente nada.
Mesmo assim, vendo as cenas, ele se divertiu. Tratava-se de uma espécie de
comédia, embora contivesse momentos de dramaticidade. Ao saírem do interior da
casa de espetáculos, a neve voltara a cair suavemente. Desistiram de caminhar
até o hotel e voltaram de taxi. O motorista guiava cuidadosamente pelas ruas
escorregadias devido à neve que caía.
Chegaram ao hotel quando já era perto de
meia noite. Se refugiaram no seu aposento rapidamente. Lá fora o fria aumentava
e um leve vento começava a soprar, aumentando a intensidade da sensação térmica
de frio. Na próxima semana visitaram a Torre Eiffel, o Museu do Louvre, a
Catedral de Notre Damme, e um grande número de lugares pitorescos. Foram de
trem ao sul da França, visitando os lugares mais importantes da região. Quando
se está passeando, vendo a cada momento algo novo e diferente, imagens de
encher os olhos, o tempo passa depressa. Já estavam na França há nove dias e
decidiram pegar o trem para a Suíça. Começariam por Berna, centro administrativo,
depois visitariam Zurique e também as principais cidades da Alemanha.
Assim passaram mais doze dias e finalmente
voaram de Bohn para Roma. Visitaram o Vaticano, assistiram missa na Basílica de
São Pedro, de trem foram a Milão, Veneza, Verona e chegou o dia de embarcar de
volta. Estavam há 28 dias na Europa. Até chegarem em casa, teria se passado
mais de um mês. Já estavam no começo de fevereiro. O inverno dava sinais de
arrefecer a intensidade. Distraídos como haviam estado naqueles dias idílicos,
envolvidos pelo amor mútuo, as paisagens deslumbrantes, alguns tombos nos
campos de esqui que Gaudêncio fizera questão de visitar e experimentar. Por
sorte não se machucara e no final havia conseguido descer um trecho menos
inclinado de montanha, acompanhado da esposa. Ela temia cair e mais ainda, que
o marido caísse. Não saberia o que fazer se ele se machucasse ali, num país
estranho, longe de todos os familiares. Por sorte correu tudo bem. Haviam
registrado tudo em fotos e filmes.
No dia 9 de fevereiro embarcaram em Roma e
voaram para o norte da África, depois para o Recife no Brasil. Foi chocante
chegar ao nordeste, em pleno verão, depois de enfrentar o frio europeu durante
um mês inteiro. Ao entardecer do mesmo dia desembarcaram no Aeroporto Salgado
Filho em Porto Alegre. Foram direto para o apartamento da família Ferreira e
ali se instalaram para ficarem um dia ou dois. Ângela precisava tratar de sua
matrícula na faculdade para não perder o ano. Se fosse para São Borja, teria
que voltar logo.
Naquela noite ligaram para a casa dos pais
de Gaudêncio e também para Joaquim. Todos queriam saber o que tinham para
contar, mas isso seria demorado. Ficaria para o momento em que estivessem
juntos, numa boa roda de chimarrão, ou saboreando um churrasco de costela gorda.
A mãe Maria Conceição quis saber do filho se a nora não estaria grávida e ele
lhe falou que isso iria acontecer no momento certo. Não se preocupasse. O neto
seria encomendado na hora devida. Era reconfortante estar novamente em solo
pátrio. Poder falar à vontade, depois de ficar um mês limitado a trocar algumas
palavras sempre com a esposa. Ele se sentira aprisionado, manietado. Queria
falar, mas de nada adiantaria, pois não seria entendido. O remédio era dizer o
que queria à esposa e ela traduziria para inglês. Depois de ouvir a resposta
lhe traduziria novamente. Ficava tremendamente impaciente com isso. No final já
havia se acostumado e jurou para si mesmo que estudaria inglês. Na próxima
viagem estaria falando fluentemente. As demais línguas que pudesse também
haveria de aprender.
O dia seguinte passou com os procedimentos
para regularizar tudo na faculdade e a noite chegou. Haviam assistido a tantas
sessões de teatro, balé, ópera, orquestras sinfônicas, canto lírico que foi um
verdadeiro bálsamo passarem uma noite vendo televisão e depois se recolherem ao
leito.
A adaptação à vida íntima havia ocorrido
de modo sereno e suave. Ângela tinha sido muito bem orientada pela mãe e fora
ao ginecologista antes de viajar para o casamento. Estava preparada para eventuais
sensações dolorosas e sangramento na primeira relação, alguma sensação de
dolorido nos primeiros dias. A excitação de ambos fora tamanha que tudo
transcorrera de modo harmonioso. Ele soubera ser paciente e calmo no momento da
consumação. Depois haviam alcançado o clímax na primeira vez, o que havia sido
dito ser pouco provável. Para completar acontecera quase simultaneamente e se
repetiu mais duas vezes sucessivas antes de se afastarem. Permaneceram
abraçados, trocando carícias e beijos. Murmurando palavras de amor eterno ao
ouvido um do outro.
No dia subsequente o no outro haviam
ficado praticamente só em aviões, descendo num aeroporto, seguindo para o outro
até chegarem ao destino. Só então haviam realmente começado sua vida a dois.
Mas com certeza valera à pena. Os momentos vividos na fria Europa, ficariam
para sempre na memória de ambos, além de estarem registrados nos filmes e
fotografias que mandariam revelar. Ele queria mandar fazer isso em Porto
Alegre, mas ficariam prontos só dali a três dias e não queriam esperar tanto.
Faria isso em São Borja. Também tinha que chegar e providenciar a matrícula,
embora tivesse avisado à secretária da escola que estaria viajando. Ela
prometera reservar sua vaga, bastando apenas ele ir lá e assinar a ficha quando
voltasse. Deveria lembrar de fazer isso antes de ir para casa. Não custaria
nada além de alguns minutos para assinar a ficha.
No dia 13 de fevereiro embarcaram para São
Borja. No aeroporto estava Joaquim com a caminhonete para levar os dois. Sabia
que estariam com um bocado de bagagem a mais do que na ida, mesmo tendo Ângela
deixado as roupas de inverno no apartamento em Porto Alegre. Ele os recebeu e
abraçou carinhosamente, indagando:
- Como foi a viagem de vocês? Se
divertiram bastante?
- O seu afilhado não gostou de não poder
conversar diretamente com o povo. Ficava impaciente esperando a tradução.
- Trate de estudar inglês, alemão,
italiano, francês, espanhol é até bem fácil. Muito parecido com o português.
- Já falei para ela. Na próxima viagem vou
sair daqui falando de tudo. Não vou mais ficar feito bobo esperando tradução.
Sabe o que é ficar mais de um mês sem dizer palavra com uma pessoa estranha? Me
senti o verdadeiro bobo da corte.
- Vamos andando. Tem almoço na minha casa
esperando. Depois vamos para a fazenda.
- Antes de ir para lá vou passar na escola
assinar minha matrícula. A Ângela já fez a dela ontem.
- Ele está mesmo levando a sério a coisa.
Isso mesmo. É o melhor que tem a fazer.
Embarcaram na caminhonete que ficara perto
da pista e foram para a casa de Joaquim na cidade. A cozinheira esperava com o
almoço pronto. Era tão diferente comer comida da terra natal, feita pela mão de
quem se conhece. Gaudêncio até exagerou um pouco, ficando um pouco sonolento
depois. Joaquim falou:
- Quer tirar um cochilo?
- Hã? Não. Vamos logo. Quero passar no
colégio e depois ir abraçar o papai e mamãe.
- E eu vou ter que esperar os meus pais
virem para Porto Alegre no final do mês para vê-los.
- E eu vou ficar aqui com saudades até sua
volta a cada semana.
- Vamos e não comecem a se lamentar agora.
A vida de casados não é só flores. Tem os espinhos que vem junto, - falou
Joaquim.
Embarcaram e foram tratar da matrícula.
Estava tudo pronto, só mesmo faltava a assinatura de Gaudêncio. Assim em menos
de dez minutos ele estava ao volante e iam para a fazenda. Estava com saudades
de dirigir. Na Europa haviam andado de trem, metrô, avião, um ou outro trecho
pequeno de ônibus. Sentira falta de acelerar e sentir o motor do carro roncando
sob o capô. Joaquim apenas sorria diante do entusiasmo do afilhado. Pelo visto
haviam se entendido perfeitamente na cama, pois não se percebia nenhuma
divergência. Tudo estava na mais perfeita ordem. Isso significava dias felizes
pela frente e certamente, nos próximos anos, os filhos. Ele os consideraria
como netos, embora fosse apenas padrinho do pai.
A recepção da família foi calorosa. O
sorriso franco estampado nos rostos de ambos, demonstrava o estado de
felicidade em que haviam voltado. Pela hora da chegada significava que haviam
almoçado na cidade. Um chimarrão foi preparado com um sorriso largo e
satisfeito de Gaudêncio, que disse:
- Vocês não imaginam a saudade que eu
estava de um amargo bem cevado. Meu Deus do céu! Cheguei a sonhar com uma cuia
e chaleira do lado.
- Sonhou e falou em sonhos. Eu acordei e
ele falando em chimarrão. Até eu fiquei com vontade.
- Na próxima vez leva uma cuia e um ou
dois pacotes de erva. – disse a mãe.
- Nem sei se pode. São capazes de criar
caso na alfândega.
- Isso tem que se informar direito,
menino.
- Mas vou mesmo. Ficar tanto tempo sem
tomar um amargo, é muito ruim.
- Agora vai matar a saudade. A tarde é
para isso. Esquece o serviço e vamos conversar. Pôr as fofocas em dia.
O resto do dia transcorreu em conversas,
risadas, um pão de milho quentinho tirado do forno, coberto de melado com
requeijão. Ai que coisa boa! Foi então que ele lembrou dos filmes que queria
ter deixado para revelar. Bem isso ficaria para outro dia. Também não era
nenhuma sangria desatada. Haveria muitos dias, noites, finais de semana para
mostrar as fotografias. Portanto nenhuma pressa em revelar. Queria um trabalho
de primeira qualidade nessa revelação e produção de cópias. Isso seria mostrado
um dia aos filhos e filhas, talvez mesmo os netos, se Deus os agraciasse com
essa graça.
Ao entardecer foram para a casa onde iriam
morar. Estava tudo limpo e arrumado. Maria Conceição mandara uma faxineira
deixar tudo impecável para a hora de os dois chegarem. Era desagradável demais
encontrar a casa suja, os móveis cobertos de pó, roupa de cama com cheiro de
estar ali há tempo. Os cobertores haviam sido postos no sol para ficarem em
ótimas condições.
As duas semanas que restavam de fevereiro
passaram céleres e estavam se separando para o início das aulas. Dona Lourdes
chegaria no mesmo dia a Porto Alegre para ficar coma filha nos primeiros dias
de aulas daquele ano. No primeiro final de semana Gaudêncio viajou para ver a
mulher. Assim aconteceu alternadamente por quase o ano inteiro. Ora era ela que
vinha, ora ele ia e nisso o ano passou. O general estava empenhado em seu
trabalho no Estado Maior e raras vezes vinha junto com a esposa, cujas visitas
eram feitas mais amiúde. O final do ano chegou e com isso estava marcada a
formatura de Ângela. Gaudêncio havia alcançado mais um objetivo. Sua aprovação
acontecera ao final do terceiro bimestre, ficando o quarto para manter média.
Seu conceito na escola estava no máximo.
No momento da colação de grau estavam
presentes Pedro Paulo, Maria Conceição, Gaudêncio e os pais dela. Antes houvera
a celebração de missa e também um culto evangélico, pois um bom número de
formandos professavam esses credos. Era importante o respeito religioso entre
eles. O país é democrático e não havia religião oficial. Para concluir a
comemoração, foram ao baile. Dança dos formandos, dança de formando(a) com mãe
ou pai, marido, esposa. Alguns discursos e muita alegria. Haviam passado muitas
horas em convivência, estudado juntos, feito trabalhos, exercícios. Agora iriam
cada um atuar em um local diferente e bem provavelmente haveria poucos momentos
de encontro. A família de Ângela foi a São Borja passar os feriados de final de
ano. O General tirara alguns dias de folga, depois de um ano e meio de trabalho
quase contínuo.
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| Aeroporto de Roma |
O novo casal, agora poderia viver junto
sem precisar passar mais tempo distantes entre si. Começaria agora de verdade a
vida de casados. Dormiriam e acordariam juntos dia após dia. Poderiam pensar em
ter filhos, cuidar deles com carinho e amor. Faze-los sentir o quanto haviam sido
desejados e seriam amados pelo resto das vidas. Após o Ano Novo, Ângela parou
de tomar pílulas e depois de dois meses apareceu a novidade. Estava grávida e o
filho deveria nascer no mês de novembro, talvez começo de dezembro. O pai da
criança por nascer ficou eufórico e fazia planos para quando o herdeiro
nascesse, esquecendo completamente da possibilidade de ser uma menina e não um
menino.
Os meses correram, embora para Gaudêncio
parecessem não passar, tamanha era a ansiedade. Quando foram comprar as roupas
para o enxoval da criança só queria coisas de cor azul, ou vermelho que é a cor
principal do time do coração. Já Ângela optava mais por cores neutras, pois se
comprasse rosa, poderia ter que deixar guardado para o momento de nascer uma
filha. Não ficaria bem vestir um menino com roupas dessa cor. Nem tampouco uma
menina na cor azul, pareceria muito normal. Não se importava com as roupas que
ele escolhia, mas juntava outro tanto de amarelinho claro, bege, estampado,
cores que poderiam ser usadas tanto por um menino como uma menina. No meio do
ano os pais dela vieram visita-los e passaram uma semana na fazenda. No começo
do ano seguinte o general passaria para a reserva e queria começar a procurar
um pedacinho de terra ali perto da fazenda.
Iria colocar o apartamento na capital à
venda. Com esse dinheiro, mais um pecúlio que havia feito durante os longos
anos de serviço, dariam para começar uma pequena propriedade. Evidentemente
precisaria de orientação, trabalhadores, pois na idade que estava não iria
aprender nem suportar fazer o trabalho pesado de agricultura. Queria mesmo ter
seu pomar, uma boa horta, uma vaca para tirar leite e estar perto da filha,
junto com a esposa. Viveria seus dias derradeiros com a família, preenchendo o
vazio que muitas vezes ficara até ali, por força do seu trabalho como militar.
Gaudêncio
se prontificou em procurar uma propriedade do tipo que o sogro queria.
Inclusive nos dias que estavam juntos andaram percorrendo algumas propriedades
e indagando de um ou outro sobre a possibilidade de venda. O valor aproximado,
tamanho, algumas sugestões sobre o que plantar como opção de alguma renda para
não virar uma área improdutiva. Os dias passaram e não encontraram o que
procuravam. O casal voltou para Porto Alegre. Ângela não os acompanhou pois o
ginecologista havia orientado para tomar alguns cuidados nos meses finas da
gestação. O ventre estava crescendo um pouco além do normal.
Algumas semanas depois de os pais
retornarem à Brasília, ela foi fazer sua consulta periódica ao ginecologista. Estavam
no começo de agosto. Ao observar o ventre, medir a circunferência e depois
auscultar o coração do feto, em dado momento o médico levantou o olhar, fitou o
pai que a acompanhava, depois ela e falou:
- Vamos ter uma surpresa aqui.
- O que doutor? Alguma coisa errada?
- Eu não falei que tinha algo errado. Não
seja apressado. Deixe-me terminar o exame depois eu falo.
E voltou ao exame, mas detalhado e
demorado que o habitual. Isso deveria ser devido ao momento mais avançado da
gestação, pensou Ângela e olhou o marido que sentado ao lado estava olhando
ansiosamente para o médico. Depois de um longo momento escutando de um lado,
depois do outro, finalmente o Dr. Raimundo falou:
- Podem preparar o enxoval dobrado. São gêmeos.
- O que? – quis saber Ângela.
- Eu disse que vocês vão ter dois filhos.
Podem ser um menino e uma menina, ou dois meninos, ou duas meninas.
Os pais começaram a rir, misturando lágrimas
com riso e não paravam. Por fim o médico falou novamente:
- É uma grande benção. Só quero alertar
que também uma grande responsabilidade. Cuidar de uma criança é trabalhos.
Imaginem duas ao mesmo tempo. Mas certamente os avós vão ajudar muito a cuidar
desses bebês.
Ele fez recomendações especiais, inclusive
seria conveniente irem a Porto Alegre para fazerem um exame de ecografia, por
enquanto só existente por lá. Ali na fronteira ainda não estava disponível esse
equipamento. Um exame desses seria importante para informar se os fetos estavam
em desenvolvimento normal, se talvez fosse preciso uma internação na UTI com incubadora
e algum tratamento especial. Depois de prescrever tudo isso e recomendar o
maior cuidado no transporte, bem como na vida em casa até o nascimento, se
despediu pedindo o retorno ao consultório dali para frente a cada mês. Queria acompanhar
mais de perto essa gestação para não ser tomado de surpresa.
Ao chegarem em casa e contarem aos avós
Pedro e Maria, os mesmos ficaram satisfeitíssimos. Logo depois foi a vez de
Joaquim receber a novidade e também entrar em agitação nunca imaginada. Como
gostaria de partilhar esse momento com a finada esposa. Certamente ela estaria
olhando para eles lá do céu e se alegrando. Joaquim julgou melhor viajarem para
capital de automóvel e poderem fazer o caminho em etapas. Isso permitiria
descansar por algum tempo sempre que a gestante se sentisse cansada. No avião
haveria o ganho com o tempo, mas uma vez no ar, não haveria o que fazer antes
de encontrar um lugar para aterrissar. Assim decidiram irem os três. Pedro se
encarregaria de cuidar de tudo e Joaquim acompanharia o jovem casal de futuros
pais na viagem. Poderiam alternar na direção e não se cansar em demasia.
Iniciaram a viagem bem de madrugada e
seguiram pelo asfalto inaugurado poucos anos antes. Era bem conservado e
conseguiram cobrir boa parte do caminho antes de a temperatura subir demais. Estavam
perto de Santa Maria e decidiram que descansariam ali, até o sol ficar menos
intenso. Depois então seguiriam até a capital, pois dali seriam pouco mais de
trezentos quilômetros. O exame pedido de ecografia além de alguns outros
estavam marcados para o dia seguinte. Poderiam descansar e bem cedo irem aos laboratórios
para coletar material e depois irem fazer a tal ecografia.
No momento em que apareceu na pequena tela
do aparelho o coração de um dos fetos batendo, depois uma cabeça, logo outra,
as duas próximas, permitindo visualizar apenas parte de cada uma. A alegria dos
dois foi indizível. O exame foi minucioso e detalhado. O Dr. Raimundo mantinha
amizade com o especialista da capital e ao saber da recomendação, ele passara a
tratá-los com mais zelo ainda. Ao terminar o exame, fez uma chapa, semelhante a
um raio-x, apenas de tamanho pequeno. Depois relatou detalhadamente tudo o que
pudera observar durante o exame. O estágio de desenvolvimento fetal, o número
aproximado de semanas da gestação, análise comparativa dos pesos e outros
informes que só os médicos entendiam mesmo. Ao lhes entregar o resultado falou:
- Podem ficar muito tranquilos. Os filhos
de vocês estão ótimos, o tamanho é quase de crianças que nascem de gestações de
único feto, tamanhos praticamente iguais. Querem saber o sexo?
- Isso é possível?
- Não posso dizer 100% de certeza, mas
pelo observado são um menino e uma menina.
- Obrigado doutor. Suas palavras nos
deixam mais tranquilos. Tínhamos ficado preocupados, pois é comum gêmeos nascerem
muito pequenos, ou um bem menor que o outro.
- Os de vocês são quase do mesmo tamanho e
até o final devem chegar a mais de dois quilos cada um. Por isso que esse abdômen
está tão distendido.
Ângela se vestiu e saíram da sala de
exames. O olhar de vê-los estava ansioso:
- Pode sossegar, padrinho. Provavelmente é
um casal e estão muito bem, diz o doutor. Tem quase o mesmo tamanho e vão pesar
mais de dois quilos.
- Caramba. Pena que eu não pude ver.
- Veja aqui tem uma chapa que o aparelho
faz. Mostra um pouco dos dois.
O homem idoso, olhou atentamente a pequena
peça de material, coberto de pontos de cores variadas, onde se conseguia ver
alguma coisa parecida com uma forma humana, mas sem detalhes. Seus olhos se
encheram de lágrimas.
- Padrinho, não chore. Eles vão lhe chamar
de vovô também.
- Eu choro de alegria, meus filhos – disse
e abraçou a ambos.
- Já temos o exame mais importante.
Precisamos só esperar os outros ficarem prontos até depois de amanhã.
- Vamos para o apartamento de papai e mamãe.
Ainda não deve ter sido vendido e tenho comigo a chave.
Embarcaram no automóvel e foram para lá. Deixaram
o carro na vaga da garagem e subiram. A noite anterior haviam passado numa
hospedaria, pois não haviam encontrado vaga em hotel e era muito tarde para
irem até o apartamento.
Depois de deixarem Ângela no quarto
descansando, os dois homens foram até o supermercado fazer algumas compras para
passar os dois dias até a sexta feira depois do almoço. Talvez viajassem depois
até Santa Maria, para prosseguir na madrugada seguinte. O apartamento estava
entregue aos cuidados de uma imobiliária para venda. Os móveis estavam ali até
o momento da efetivação da venda. Ângela se encarregou de cozinhar para eles e
ocuparam o tempo indo ver algumas coisinhas diferentes para os bebês, uma vez
que agora sabiam com certeza serem dois e também que, quase certo, era um
casal. Por isso poderiam comprar tudo dobrado, nas cores azul e rosa.
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| Aeroporto de Casablanca |
Foi o que fizeram e voltaram com uma pequena
montanha de sacolas cheias. Não faltariam roupas para os dois pequenos. O avô
postiço como ele se intitulava, tinha dado sua contribuição, comprando um
carrinho duplo para duas crianças e também cobertores e outras peças de roupas.
Não poderiam comprar coisas demais com o risco de faltar espaço no carro e
terem que despachar por transportadora.
A viagem de retorno correu normalmente. Enquanto
estavam no apartamento, fizeram uma chamada para Brasília e comunicaram aos avós
maternos a novidade. Faltou pouco para os dois largarem tudo e virem naquela
noite mesmo para o sul. Não fosse tão pouco tempo que faltava para a reserva,
teriam vindo. No último momento haviam mantido o controle e não fariam loucura
nenhuma. Esperariam as crianças nascerem e viriam conhecer os netos.
Na próxima visita ao doutor Raimundo,
levaram os exames todos prontos. Ele ficou muito satisfeito e tranquilo quando
viu o laudo do colega da capital. Sabia agora que não haveria necessidade de se
preocupar com uma intervenção cesariana para evitar sofrimento fetal ou da mãe.
O desenvolvimento indicava que nem estufa precisariam.
De fato, no dia 28 de novembro de 1983,
nasceram Paulo Joaquim Ferreira Neves e Maria de Lourdes Ferreira Neves. Ele pesando
2,260 kg e ela 2,180 kg. Ela nasceu primeiro e ele por último, havendo entre
eles um intervalo de 10 minutos. Mal Maria de Lourdes chorara, nasceu Paulo
Joaquim e não demorou também em pôr sua boca no mundo. Foram pesados, medidos e
limpos. Depois foram vestidos e colocados nos braços da mãe que os aguardava
ansiosa. O pai estava ao lado e olhava embevecido para a esposa. Era um sonho
realizado. Mais tarde faria uma chamada para Brasília comunicando o nascimento
aos sogros. Igualmente informaria de que tudo correra muito bem. Poderiam ficar
descansados.
Logo depois avisou ao padrinho que se
encarregou de ir até a fazenda avisar os avós paternos. A fazenda entrou em
festa. Os empegados todos estimavam demasiadamente Gaudêncio e também Ângela. O
nascimento de um casal de filhos era uma verdadeira benção.
O apartamento em havia sido vendido
mobiliado como estava. O dinheiro fora depositado em uma conta poupança para não
haver desvalorização demasiada. Gaudêncio tinha duas propriedades em vista e
esperava o sogro vir para leva-lo a ver ambas. Ele decidiria qual iria comprar.
Os preços eram semelhantes e cabiam no orçamento que ele tinha. Se houvesse
necessidade de algum suplemento não havia impedimento em fazer um adiantamento.
Os avós maternos vieram para os festejos
natalinos e nesse período foi feita a compra da propriedade. Tão logo o sogro
se desvencilhasse dos compromissos com o exército, viriam morar ali. Enquanto isso
as crianças cresciam a olhos vistos. A mãe tinha leite em abundância de modo
que não faltava alimento para os dois pequenos gulosos. Os avós de ambos os
lados, mais o avô postiço Joaquim, pareciam dois pares de velhos corujas, com
um corujão ao lado paparicando os netos.
O tempo passou, eles foram batizados, o
registro civil fora feito no dia imediato ao do nascimento. Depois de um ano e
meio de idade ganharam uma irmã de nome Lourdes Conceição Ferreira Neves e dali
a dois anos nasceu Gaudêncio Ferreira Neves, completando a família. Para quem
era filho único, afilhado de padrinho sem filhos, era um bom número. Os pais
eram um desvelo só com os pimpolhos e os avós completavam o grupo. Viviam uma
verdadeira vida familiar, todos residindo próximos. Apenas Joaquim, quando não
estava viajando, ficava junto na fazenda para não perder um dia do crescimento
das crianças. Isso enquanto pode se dar ao luxo de viajar. Depois de 1990, sua
saúde começou a declinar e foi preciso ficar mais recluso. Poderia eventualmente
viajar, porém acompanhado de alguém para prover socorro em qualquer emergência.
O general aprendeu a fazer uma porção de
coisas na sua propriedade. Até tirar leite aprendeu. Tinha ao adquirir o imóvel
já plantado um pomar, algumas parreiras e por isso ele tinha especial apreço. O
Brasil foi redemocratizado em 1986, tendo assumido a presidência da República o
Vice José Sarney, em lugar do finado Tancredo de Almeida Neves. O filho caçula
de Ângela e Gaudêncio nasceu em 1987, quando o plano cruzado já estava
naufragando, vindo logo a seguir o plano cruzado dois, depois plano Bresser e
outras invenções que não conseguiram domar o dragão voraz da inflação na
economia nacional.
O restante da história...fica para ser
contado em outro momento. Agora ele não tem importância.
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| Aeroporto de Roma, visão interna. |










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